Autor: Henrique Caveira
SNEAK ‘N PEEK (ATARI 2600, 1982)
Joguei games num monte de sistemas diferentes ao longo dos meus anos de criança, como NES, Master System, Mega Drive, Super Nes, Spectrum e MSX. Mas o videogame definitivo da minha infância e meu principal companheiro de jogatinas entre os 6 e os 11 anos de idade foi o clássico ATARI 2600 (na verdade, um clone nacional fabricado pela CCE, chamado SUPER GAME). E, embora o Atari tenha deixado na minha memória dezenas de games legais, a plataforma também contribuiu para algumas decepções tristes de doer.
Sneak ‘n Peek é uma delas.

Observe por alguns segundos o bonito desenho do cartucho nacional da CCE. Tá, tá, não contabilize o fato de que a empresa não soube nem escrever o nome certo do jogo, trocando Peek por “Peak”. Concentre-se na ilustração: o que você entende que está acontecendo? Não parece que os dois garotos estão explorando uma sinistra mansão mal-assombrada à noite? Eu sei que o nome do jogo significa literalmente “esconde-esconde” (a tradicional brincadeira de criança), mas por que você iria colocar crianças bricando de esconde-esconde à noite, num lugar tão sinistro, se não fosse para adicionar nenhum componente de mistério, terror ou sobrenatural?
Desnecessário dizer que eu, quando criança, via esse cartucho nas lojas e pensava: uau, é um game de TERROR! Ora, se dois garotos estão numa velha casa abandonada à noite, só pode ser porque lá existe algum fantasma, algum vampiro, algum serial killer, alguma lenda do tesouro, etc. Certo?
ERRADO!!! Sneak ‘n Peek é pura e simplesmente uma adaptação do esconde-esconde para videogame, sem nenhum aproveitamento da ambientação escolhida. A velha casa abandonada poderia ser qualquer casa (poderia ser até um apartamento, já que possui apenas três cômodos!) e o fato de ser noite e de os dois garotos estarem sozinhos no lugar não possui nenhuma importância para o jogo. Em outras palavras, se o jogo fosse ambientado durante o dia, dentro da casa dos pais de um dos próprios personagens, isso não mudaria em absolutamente nada a mecânica do jogo. Isso é que é “design criativo”, hein?
Depois que a criança é iludida pela bonita ilustração do cartucho, tudo é decepção em Sneak ‘n Peek. Se você tivesse um amigo para jogar junto, ele precisaria sair da sala enquanto você escondia seu personagem, e depois ele voltaria para fazer o personagem dele sair procurando o seu pelo cenário. Já é uma coisa totalmente retardada, pois se você é criança e está com um amigo em casa, é mil vezes melhor brincar de esconde-esconde DE VERDADE!!! Mas a coisa é ainda mais triste se você for jogar sozinho, pois daí o jogo se resume a tentar descobrir aonde o personagem controlado pelo computador se escondeu. Como a “enorme casa abandonada” se resume a quatro telas (três aposentos e a parte externa da casa), cada um com um punhado de esconderijos possíveis, é desnecessário dizer que o jogo se torna absolutamente sem valor depois de pouquíssimo tempo, quando o jogador passa a conhecer todos os esconderijos existentes.
Os defeitos de Sneak ‘n Peek vão longe: se você experimentar o game, musiquinhas retardadas e descontextualizadas irão fritar seu cérebro, sem falar nas convulsões epilépticas causadas pelos gráficos horrorosos, que são muito ruins até para os padrões do Atari (a única cena que se salva é a externa, com a fumacinha saindo da chaminé da casa). A jogabilidade é horrenda: às vezes você não consegue entrar num esconderijo que sabe que está ali, e em outros momentos você entrará sem querer num esconderijo onde não queria ir – e não tem como voltar.
A física do jogo também é capaz de enlouquecer qualquer mente mais delicada. Todo mundo que já foi criança sabe que realmente é possível se esconder atrás do sofá e debaixo da cama. Mas alguém aí sabe como é que seria possível se esconder DEBAIXO de um sofá? E como se faz para ficar escondido DEBAIXO de uma trilha no chão? O que os programadores de Sneak ‘n Peek fumavam!?!?
Apesar dos pesares, a lição de Sneak ‘n Peek é atemporal: NUNCA julgue um game pelo desenho da embalagem. Você corre o risco de desenvolver um trauma para toda a vida.
“Nossa, QUANTOS lugares incríveis para se esconder nessa sala na qual não existe absolutamente nada além de um sofá …”
PECADOS GAMÍSTICOS!
Seguindo a tendência dos amigos do Gaga Games, Retroplayers, GLStoque, Game Retrô e outros, elaborei a minha própria lista de pecados gamísticos, aquelas confissões que envergonham qualquer retrogamer digno de assim ser chamado. Conto com a piedade e compreensão de vocês, e que possam orar por minha alma para que eu não seja punido em excesso no além-vida por estes pecados horrendos …
PECADO Nº 1: O ÚNICO RPG DE VIDEOGAME QUE TERMINEI NA VIDA FOI PHANTASY STAR DO MASTER SYSTEM

Sim, eu confesso!!! Adoro RPGs, joguei Dungeons & Dragons e AD&D com amigos na adolescência, colecionei livrinhos da série Aventuras Fantásticas e sou fã de Lord of the Rings. Mas dos incontáveis RPGs de console que joguei na vida, o ÚNICO que terminei foi o clássico PHANTASY STAR do Master System. Creio que o ano foi 1994 e 1995, e eu jogava esse jogo no meu Game Gear com adaptador para cartuchos de Master System (e com o Super Wide Gear para aumentar o tamanho da tela). Eu adoro Dragon Warrior, Grandia II, Legend of Dragoon, Final Fantasy e assemelhados, mas RPGs levam dezenas de horas para serem finalizados, e eu simplesmente não tenho paciência pra gastar mais do que 10 ou 15 horas envolvido com uma campanha de jogo. Vale frisar que eu virei também o DIABLO original do PC, mas quem conhece sabe que é um estilo de RPG totalmente diferente.
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PECADO Nº 2: O ÚNICO MEGA MAN QUE TERMINEI NA VIDA FOI O CURTO MEGAMAN II DO GAME BOY CLÁSSICO

Passei a infância babando nos games da série Mega Man do NES, mas o único jogo da série que terminei foi o curto e relativamente fácil (para os elevadíssimos padrões da série) Mega Man II do Game Boy clássico. Nunci virei outro game da série, nem nos consoles originais, nem em emuladores. Ou seja: NUNCA virei um Mega Man do NES, do Super Nes ou do Playstation, NUNCA virei um Mega Man X do Super Nes e NUNCA virei um Mega Man Zero do Game Boy Advance ou Nintendo DS. E olha que nem estou entrando no mérito de outras séries “spin-off” como Mega Man Battle Network, a qual não curto. Realmente, uma falha GRAVE no meu currículo retrogamer.
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PECADO Nº 3: TIVE UM MSX E NUNCA JOGUEI METAL GEAR E NEM VAMPIRE KILLER

Essa é foda. O microcomputador oitentista MSX provavelmente tem como maiores orgulhos em seu currículo o fato de ter trazido ao mundo as séries Metal Gear e Castlevania (Vampire Killer também é da Konami e, apesar do nome diferente, já continha todos os elementos tradicionais do que viria a ser a série Castlevania). Só que, nos três anos e meio em que tive um MSX, nunca joguei nenhum desses dois clássicos supremos. Mas antes que vocês mandem os demônios do inferno levarem minha alma, apresento um argumento técnico de defesa: esses dois games foram lançados para o padrão MSX 2, e o meu computador, que era um Expert da Gradiente, era compatível com o padrão MSX 1. Portanto, mesmo que eu conhecesse esses games na época e tivesse tido a intenção de jogá-los, não seria possível. Mas eu não os conhecia …
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PECADO Nº 4: NUNCA TERMINEI NENHUM SHOT’ EM UP NA VIDA
Adoro shot’em ups, os famosos “games de navezinha”. Zanac, Terra Cresta, 1942, Tyrian, Sky Jaguar, Aleste, Ikaruga, Raiden … a lista vai longe. Mas nunca, NUNQUINHA cheguei ao final de nenhum game do estilo. E aqui nem posso alegar a “falta de paciência” que tenho com RPGs, portanto a culpa é da minha inabilidade enquanto jogador mesmo!
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PECADO Nº 5: NUNCA TERMINEI SUPER MARIO BROS 3 DO NES
Cresci apaixonado pelos games da série Super Mario Bros. Não os joguei tanto quanto queria na infância e adolescência, mas depois de adulto tratei de tirar o atraso: terminei SUPER MARIO BROS 2 e SUPER MARIO WORLD nas suas versões para Game Boy Advance, terminei SUPER MARIO BROS nos emuladores e joguei SUPER MARIO BROS 3 na versão do Game Boy Advance … mas não terminei o jogo! Ou seja, estamos em 2010, o game existe há VINTE ANOS, muitos o consideram o melhor jogo do Mario de todos os tempos e eu AINDA não o terminei. Meu Deus, que vergonha!!! Parem de olhar pra mim, me deixem em paz!!!
“E esta é por nunca ter terminado nenhum Final Fantasy, seu pretenso retrogamer de meia tigela!!!”
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ATUALIZAÇÃO: segue abaixo a relação completa dos retroblogs envolvidos no projeto “Pecados Gamísticos”. A lista é uma contribuição do retroblog GLStoque. Valeu, parceria!
A Link to The Past
http://newbaforever.wordpress.com/2010/02/21/meme-pecados-gamisticos/
Blog do Gustavo
http://gugastavo.wordpress.com/2010/02/24/preguica/
Cemetery Games
https://cemeterygames.wordpress.com/2010/03/12/pecados-gamisticos/
Dimensão X
http://dimensaoxis.blogspot.com/2010/02/pecados-gamisticos-do-oraculo.html
DingooBR (Sandro “Tandrilion”)
http://www.dingoobr.com/?p=1896
DingooBR (Zolini)
http://www.dingoobr.com/?p=1819
First Stage
http://firststage.wordpress.com/2010/01/31/confissoes-de-um-gamer-desencaminhado/
Gaga Games
http://www.gagagames.com.br/?p=11726
Game Retrô
http://gameretrobrasil.blogspot.com/2010/01/45-revelacoes-bombasticas-no-gameretro.html
GLStoque
http://glstoque.blogspot.com/2010/02/pecados-gamisticos-glstoque.html
MMOPlayers
http://www.mmoplayers.com.br/news/pecados-gamisticos-as-confissoes-de-stuka/
New Old Players
http://newoldplayers.blogspot.com/2010/02/pecados-gamisticos-new-old-players.html
Nostalgia & Tecnologia
http://nostec.wordpress.com/2010/02/18/pecados-gamisticos-do-lord/
RetroNewsForever
http://retronewsforever.blogspot.com/2010/03/rapidinhas-do-nesbitt-inquisicao.html
Retroplayers
http://www.retroplayers.com.br/?p=3557
ANIVERSÁRIO DE PRIMEIRO ANO DO CEMETERY GAMES!
Neste domingo, 07/03/2010, o CEMETERY GAMES completou um ano de vida! Foram 8.780 visitas registradas nesse primeiro ano de atividades do blog. Para vocês terem uma idéia, o site Cemetery Games original (que ficou no ar entre 2002 e 2005) teve 2.500 visitações registradas ao longo de seus últimos dois anos de existência. Ou seja: o blog atual, na metade deste tempo, teve mais do que três vezes esse número de frequentadores.
É um número impressionante e animador para um projeto totalmente desprovido de divulgação profissional como o Cemetery Games, e mostra o grande interesse que os games antigos despertam nos jogadores de todas as idades.
Quero registrar meu agradecimento a todos os frequentadores, eventuais e habituais, bem como aos parceiros do Cemetery Games: GAGA GAMES, RETROPLAYERS, GLSTOQUE, SHUGAMES e vários outros. Como testemunhas oculares dos dias de glória dos consoles de segunda, terceira e quarta geração de videogames, nós temos o dever não só de relembrar estes tempos com os nossos contemporâneos como, também, de dividir esse conhecimento e essas memórias com a gurizada mais jovem, a “geração Playstation”.
A cena retrogamer brasileira é grande e forte, e nós somos ela! Um grande abraço e parabéns pelo trabalho que vocês estão fazendo.





