SNEAK ‘N PEEK (ATARI 2600, 1982)

Joguei games num monte de sistemas diferentes ao longo dos meus anos de criança, como NES, Master System, Mega Drive, Super Nes, Spectrum e MSX. Mas o videogame definitivo da minha infância e meu principal companheiro de jogatinas entre os 6 e os 11 anos de idade foi o clássico ATARI 2600 (na verdade, um clone nacional fabricado pela CCE, chamado SUPER GAME). E, embora o Atari tenha deixado na minha memória dezenas de games legais, a plataforma também contribuiu para algumas decepções tristes de doer.

Sneak ‘n Peek é uma delas.


Observe por alguns segundos o bonito desenho do cartucho nacional da CCE. Tá, tá, não contabilize o fato de que a empresa não soube nem escrever o nome certo do jogo, trocando Peek por “Peak”. Concentre-se na ilustração: o que você entende que está acontecendo? Não parece que os dois garotos estão explorando uma sinistra mansão mal-assombrada à noite? Eu sei que o nome do jogo significa literalmente “esconde-esconde” (a tradicional brincadeira de criança), mas por que você iria colocar crianças bricando de esconde-esconde à noite, num lugar tão sinistro, se não fosse para adicionar nenhum componente de mistério, terror ou sobrenatural?

Desnecessário dizer que eu, quando criança, via esse cartucho nas lojas e pensava: uau, é um game de TERROR! Ora, se dois garotos estão numa velha casa abandonada à noite, só pode ser porque lá existe algum fantasma, algum vampiro, algum serial killer, alguma lenda do tesouro, etc. Certo?

ERRADO!!! Sneak ‘n Peek é pura e simplesmente uma adaptação do esconde-esconde para videogame, sem nenhum aproveitamento da ambientação escolhida. A velha casa abandonada poderia ser qualquer casa (poderia ser até um apartamento, já que possui apenas três cômodos!) e o fato de ser noite e de os dois garotos estarem sozinhos no lugar não possui nenhuma importância para o jogo. Em outras palavras, se o jogo fosse ambientado durante o dia, dentro da casa dos pais de um dos próprios personagens, isso não mudaria em absolutamente nada a mecânica do jogo. Isso é que é “design criativo”, hein?

Depois que a criança é iludida pela bonita ilustração do cartucho, tudo é decepção em Sneak ‘n Peek. Se você tivesse um amigo para jogar junto, ele precisaria sair da sala enquanto você escondia seu personagem, e depois ele voltaria para fazer o personagem dele sair procurando o seu pelo cenário. Já é uma coisa totalmente retardada, pois se você é criança e está com um amigo em casa, é mil vezes melhor brincar de esconde-esconde DE VERDADE!!! Mas a coisa é ainda mais triste se você for jogar sozinho, pois daí o jogo se resume a tentar descobrir aonde o personagem controlado pelo computador se escondeu. Como a “enorme casa abandonada” se resume a quatro telas (três aposentos e a parte externa da casa), cada um com um punhado de esconderijos possíveis, é desnecessário dizer que o jogo se torna absolutamente sem valor depois de pouquíssimo tempo, quando o jogador passa a conhecer todos os esconderijos existentes.

Os defeitos de Sneak ‘n Peek vão longe: se você experimentar o game, musiquinhas retardadas e descontextualizadas irão fritar seu cérebro, sem falar nas convulsões epilépticas causadas pelos gráficos horrorosos, que são muito ruins até para os padrões do Atari (a única cena que se salva é a externa, com a fumacinha saindo da chaminé da casa). A jogabilidade é horrenda: às vezes você não consegue entrar num esconderijo que sabe que está ali, e em outros momentos você entrará sem querer num esconderijo onde não queria ir – e não tem como voltar.

A física do jogo também é capaz de enlouquecer qualquer mente mais delicada. Todo mundo que já foi criança sabe que realmente é possível se esconder atrás do sofá e debaixo da cama. Mas alguém aí sabe como é que seria possível se esconder DEBAIXO de um sofá? E como se faz para ficar escondido DEBAIXO de uma trilha no chão? O que os programadores de Sneak ‘n Peek fumavam!?!?

Apesar dos pesares, a lição de Sneak ‘n Peek é atemporal: NUNCA julgue um game pelo desenho da embalagem. Você corre o risco de desenvolver um trauma para toda a vida.

“Nossa, QUANTOS lugares incríveis para se esconder nessa sala na qual não existe absolutamente nada além de um sofá …”

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9 pensamentos sobre “SNEAK ‘N PEEK (ATARI 2600, 1982)

  1. Porra, eu curti esse jogo.. jogava mto com os amigos.. e eles nem precisavam sair da sala.. só virar de costas pra tv… era um sarro.

  2. meu primo tinha este jogo aew.
    eu vi a fita e fiquei muito curioso pra jogar. aew emprestei dele esta fita sem ter o Atari, pois na época, já havia vendido pra comprar outro mais moderno.
    acabou que eu nunca joguei… e esses dias arrumando uma coisas descobri esta fita e fiquei curioso novamente e aew ao pesquisar o jogo no google cai aqui neste site onde vendo os gráficos já vi que nao perdi nada em nunca ter jogado o seak’s peak. mas a ilustração da capa é ótima.

  3. Sempre amarei esse jogo.
    Caí aqui nesse blog pesquisando por uma memória muito vaga que eu tinha, mas que sabia que era maravilhosa. Estava atrás de um jogo muito antigo de esconde esconde para video game. Lembro de como era muuito legal. Enquanto um player se escondia, o outro saia do quarto para depois voltar e procurar. Poderíamos sim brincar “de verdade”, mas vídeo game era novidade demais pra perder.
    Hoje tudo pode parecer ruim, mal feito e idiota. Mas para um muleque que não sabia o que era video game, isso tudo não importava, pois sempre serão ótimas lembranças da infância.

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