1991: MEMÓRIAS DE UM GAMER PRÉ-ADOLESCENTE – PARTE I

falei aqui no Cemetery Games que 1991 foi um ano histórico para os videogames. Trinta anos se passaram e é o momento certo para fazer uma pequena viagem retrô para aquela época. Poderíamos fazer uma lista de grandes jogos lançados naquele ano, dos novos consoles que surgiram, etc. Vou optar por um approach diferente. Quero compartilhar com vocês um review gamer de 1991, na visão da experiência real de alguém que era fã de videogames naquela época.

Bem, o que estava acontecendo na cena dos games naquele ano? Para começo de conversa, a resposta depende de saber aonde você estava. Nos Estados Unidos e no Japão, o Nintendo 8-bits estava estabelecido, de forma hegemônica, como o videogame definitivo de sua geração. O Mega Drive era a grande novidade da época. Ele já estava no mercado há três anos e era incomparavelmente superior ao NES em termos de hardware, mas ainda não tinha uma biblioteca de games suficientemente forte para ameaçar o reinado do console de 8-bits da Nintendo. O Super Nintendo tinha acabado de ser lançado no Japão, mas ainda era uma novidade distante para o público brasileiro.

Como eu não morava nos EUA nem no Japão, minha realidade gamer de pré-adolescente de nove-para-dez anos de idade por aqui era bem diferente. Eu ainda tinha que me contentar tão somente com o meu bom e velho Atari (mais precisamente, o clone nacional Supergame, da CCE), que ganhei em 1987.

O console já era algo como um item de museu nos países desenvolvidos, mas por aqui ainda tinha uma base muito forte. Estávamos nos anos 1990 e lojas por aqui ainda comercializavam cartuchos de Atari. É verdade, sim. Pode acreditar. Eu comprei o jogo Fisher Price do Atari (na versão nacional da CCE) numa loja no centro aqui da minha cidade em 1991 – na época em que, nos EUA e no Japão, o pessoal já estava começando a jogar Super Nintendo!

A razão disso é óbvia: o preço. Aparelhos como os clones nacionais do NES, ou o Master System comercializado no país pela Tec Toy, custavam caro. Mas o verdadeiro problema não era apenas o preço dos consoles, e sim o preço dos cartuchos. Grosso modo, dá para dizer que quatro ou cinco cartuchos do Master acabavam custando o preço do console! Vamos fazer um comparativo em termos contemporâneos: imagine que você esteja querendo comprar um Playstation 4 e que tenha encontrado um aparelho novo à venda por R$ 2.000,00. Agora imagine que os jogos de Playstation 4 só fossem vendidos em mídia física e que todos eles custassem em torno de R$ 400 cada. Proibitivo, né? Pois é. Essa era a realidade do mercado brasileiro em 1991. Não era fácil ser fã de videogames por aqui na época, ainda mais se você fosse uma criança de nove anos.

Daí a sobrevida do bom e velho Atari por essas bandas. Desde o final dos anos 1980, não apenas os clones nacionais do Atari eram baratos como – principalmente – os cartuchos eram baratos. Para vocês terem uma ideia, eu usava uma caixa de sapatos para guardar meus cartuchos. Acho que eu tinha algo em torno de uns 20 cartuchos, e vale lembrar que vários deles continham quatro jogos (a fabricante Milmar era prolífica neste tipo de cartucho “quatro em um”). Se você tivesse um NES ou Master System em 1991, seria basicamente impossível ter essa quantidade de jogos em casa (a menos que, sei lá, a sua família fosse dona de um poço de petróleo).

Mas, mesmo para quem ainda não tinha saído do Atari, 1991 foi um ano de novidades interessantes. Dois fatores, para mim, são os mais significativos. Primeiro: 1991 foi o ano da popularização das LOCADORAS DE VIDEOGAME no país. Elas seguiam o mesmo modelo das saudosas locadoras de filmes, e abriam um novo mundo de possibilidades para os jogadores. De repente, o preço proibitivo dos jogos deixava de ser um obstáculo para conhecer novos jogos. Era possível ficar babando nas caixas expostas dos jogos e tomar conhecimento da existência de títulos dos mais variados (lembrem-se: tudo isso foi muito antes de as pessoas terem internet em casa).

Além disso, as locadoras disponibilizavam consoles de última geração para que os clientes pudessem jogar no estabelecimento. Nunca me esqueço da primeira vez que vi um Mega Drive numa locadora, com o clássico Golden Axe deixando toda a meninada com os queixos no chão.

O jogo era de uma barbárie visual até então inconcebível. O jogador arrebentava os inimigos a golpes de espada ou machado. Os inimigos faziam cara de dor e GRITAVAM quando morriam.

Eu achava tudo aquilo de um realismo inacreditável! Até então, “matar” um inimigo no videogame significava basicamente atirar um projétil na direção dele e vê-lo piscar e desaparecer. Descer o machado numa pessoa até ela morrer berrando era uma sensação bem diferente. Claro: poucos anos depois, Mortal Kombat chegaria para arremessar para o espaço todos os padrões vigentes de violência em videogames.

A novidade das locadoras de videogame me permitiu conhecer games de Atari que, por um motivo ou outro, haviam escapado do meu radar até então. Foi a partir de 1991, graças às locadoras, que eu vim a conhecer “novos” games do Atari, incluindo aí Missile Command, Space Caverns, Jungle Hunt e Star Wars. De certa forma, as locadoras representaram um “sopro de sobrevida” para o meu Atari.

Claro, nem tudo são flores. Por meio das locadoras, eu também vim a conhecer na época algumas atrocidades do Atari como Raiders of the Lost Ark, Haunted House e E.T. – The Extra Terrestrial (mas admito que a tela de abertura deste era bem caprichada para os padrões do console).

Se você acha que a mania de ver outras pessoas jogando videogame é um fenômeno que começou com o YouTube, então é porque não viveu a época das locadoras de games. A gente fazia exatamente isso na época, só que presencialmente. Era um barato ver o pessoal “reservando” aparelhos para jogar NES ou Mega Drive por 30 minutos ou uma hora. Essa era uma das minhas ideias de suprema diversão na época: ir na locadora, alugar um ou dois cartuchos de Atari para o fim de semana, examinar cada caixinha de jogo exposta nas paredes e ver o pessoal jogando nos consoles. De vez em quando, apesar do meu orçamento limitado de fedelho de nove anos, eu até me aventurava a jogar um pouco também.

E qual foi a segunda grande novidade para quem era gamer pré-adolescente no Brasil em 1991? Respondo: as REVISTAS DE VIDEOGAME! Até onde eu lembro, algumas publicações esparsas especializadas em games já tinham aparecido nas bancas no ano anterior, mas 1991 foi O ano do estabelecimento e consagração deste “novo tipo de mídia” aqui no país. Foi uma mudança cultural muito grande. Antes das revistas de videogame, nossas fontes de informações se limitavam a conversas com amigos e colegas de escola. Não existia internet, não existiam programas especializados em games na TV, não existia nada. A gente só conhecia o que via nas lojas, em comerciais ou na casa de algum amigo. De repente, você podia ir numa banca e comprar uma revista com as últimas novidades do mercado nacional e internacional. Não é exagero dizer que revistas de videogame como Ação Games, SuperGame e VideoGame eram para nós, pré-adolescentes de 1991, o equivalente do YouTube e das plataformas de streaming de playthroughs para a gurizada de 2021.

Bom, pessoal, por enquanto era isso. O velho Caveira vai ficando por aqui. Na próxima parte deste nosso pequeno especial “memórias de 1991”, vou falar mais um pouco sobre as revistas de games daquele ano. Fiquem ligados!

(MAIS) 13 RETROGAMERS PARA CURTIR O HALLOWEEN (Parte 2)

E viva o Halloween, caros amigos do Cemetery Games!

Conforme prometido, segue a segunda parte da nossa lista especial do Halloween 2021!

9) PRISONER OF ICE (1995, PC)

Mais H.P. Lovecraft nos games? Pode apostar que sim! Este aqui é um adventure “point and click” que eu joguei até o final ali pela virada do milênio.

Na trama, que se passa durante a Segunda Guerra Mundial, o jogador encarna um oficial da marinha chamado Ryan, que está a bordo de um submarino chamado HMS Victoria. De passagem pela Antártica, a tripulação do submarino resgata um norueguês que acabou de fugir de uma base secreta nazista localizada no meio do gelo. Junto com o fugitivo, a tripulação resgata duas grandes e misteriosas caixas provenientes da base nazista no local, e é aí que os problemas começam.

Prisoner of Ice é uma continuação direta do game Shadow of the Comet, lançado pela Infogrames em 1993. O jogo não fez tanto barulho e não foi tão ostensivamente bem recebido quanto Shadow of the Comet, mas possui uma mecânica muito semelhante e é obrigatório para fãs de antigos adventures de horror. O trabalho de “voice acting” é o ponto fraco do jogo (especialmente na versão dublada em português, que foi a que eu joguei na época), mas a arte e a trama fazem a experiência valer a pena.

Você pode adquirir Prisoner of Ice no site Good Old Games, numa versão pronta para rodar em PCs contemporâneos, por apenas R$ 11,99.

10) DARKWATCH (2005, PLAYSTATION 2)

Parece esquisito falar de “retrogaming” fazendo menção a um jogo do outrora todo-poderoso Playstation 2, mas o fato é que o lendário console da Sony foi lançado há mais de vinte anos e seus jogos já são antigos o suficiente para que possamos considerá-los como games retrô. E, já que a ideia é falar de games de horror da sexta geração de consoles, Darkwatch é uma ótima pedida.

O jogo anda meio esquecido hoje em dia, mas é uma ótima mistura de first person shooter com temática de western misturado com filme de terror. O jogador encarna um pistoleiro fora da lei chamado Jericho Cross, que faz parte de uma misteriosa ordem de caçadores de criaturas sobrenaturais chamada Darkwatch.

O jogo se passa no Velho Oeste, no final do século XIX, e a missão de Jericho é basicamente encher de balas qualquer coisa saída da sepultura que insista em continuar se mexendo. Apesar da boa recepção na época do lançamento, Darkwatch lamentavelmente acabou não ganhando nenhuma continuação.

O jogo foi lançado também para o Xbox.

11) SILENT HILL 3 (2003, PLAYSTATION 2)

A série Silent Hill é um dos marcos da história dos games de horror. Na minha humilde opinião, Silent Hill 3 representou o ápice da franquia. Não é por nada que esse foi o único game da série que eu joguei incansavelmente até o final, assim que comprei meu Playstation 2 em 2005.

Com gráficos fantásticos para a época e uma atmosfera horripilante de pesadelo e surrealismo, Silent Hill 3 permanece sendo um dos jogos de terror mais incríveis de todos os tempos. Se você duvida que um jogo de Playstation 2 ainda seja capaz de ser assustador depois de tantos anos, experimente Silent Hill 3. Você não vai se arrepender!

Se você não tem um velho Playstation 2 guardado em algum lugar da sua casa, não tem problema: você pode jogar Silent Hill 3 na versão para PCs ou por meio da Silent Hill HD Collection, lançada em 2012 para Playstation 3 e para Xbox 360.

12) ALONE IN THE DARK (1992, PC)

Ouvi falar de Alone in the Dark pela primeira vez em algum ponto de 1993 ou 1994, por meio de uma matéria da edição nº1 da revista Computer Games, da Sigla Editora. Um tempo depois, tive a oportunidade jogá-lo em um PC 386 que meus pais tinham acabado de comprar.

O jogo foi lançado em 1992 pela Infogrames (a mesma desenvolvedora dos adventures “Shadow of the Comet” e “Prisoner of Ice” – comprovando que o pessoal da Infogrames era fã de carteirinha do celebrado escritor H.P. Lovecraft) e pode ser considerado o pioneiro moderno do estilo “survival horror”, tendo servido de influência direta para o hit Resident Evil, lançado poucos anos depois. Os gráficos poligonais eram sensacionais para a época e antecipavam o futuro próximo dos videogames, que se estabeleceria por meio do sucesso de novos consoles como Playstation e Nintendo 64.

A trama se passa nos anos 1920, na sinistra mansão Derceto – cujo dono se suicidou, deixando a propriedade de herança para sua sobrinha Emily. A mocinha contrata o detetive Edward Carnby para ajudá-la a explorar o lugar. Você pode escolher entre jogar com Edward ou Emily, e a missão é derrotar as forças malignas que controlam a misteriosa mansão. Alone in the Dark é mais um game profundamente influenciado pelas obras de H.P. Lovecraft, cujos trabalhos dão o tom da trama e da atmosfera do jogo.

Você pode jogar esse clássico dos games de horror em PCs modernos, comprando ele no site Good Old Games por míseros R$ 11,99 – e ele ainda vem acompanhado das continuações Alone in the Dark 2 e Alone in the Dark 3 (que também são boas, mas sem a mesma originalidade e impacto). É recomendável ficar de olho nas promoções do site. Por exemplo: neste momento, durante o período de Halloween, o jogo está em promoção por inacreditáveis R$ 2,99. Está esperando o quê, seu morto-vivo?!?

13) ALONE IN THE DARK – THE NEW NIGHTMARE (2001, PSONE, PC, DREAMCAST)

As duas primeiras continuações de Alone in the Dark eram interessantes, mas pecavam pela falta de originalidade e pelo visual muito próximo ao jogo original. Depois disso, a franquia foi tristemente arruinada pelos péssimos jogos lançados em 2008 (com o mesmo nome do jogo original de 1993) e em 2015 (o lamentável Alone in the Dark: Illumination).

No meio desta longa lista de frustrações, a série Alone in the Dark brilhou com força, uma vez mais, no ano de 2001 – por meio do lançamento do excelente Alone in the Dark: The New Nightmare.

O game é uma espécie de “reimaginação” do game original de 1992, reapresentando o personagem Edward Carnby, mas numa ambientação completamente diferente. Desta vez, o jogo se passa em 31 de outubro de 2001 (em pleno Halloween!) e a trama é ambientada numa misteriosa ilha chamada Shadow Island.

Instigante e com gráficos ótimos para a época, The New Nightmare representou um retorno triunfante aos dias de glória da série Alone in the Dark. Devo admitir que este jogo me proporcionou alguns dos sustos mais intensos que já tive com qualquer game de horror na vida adulta. Joguei este game sem parar no meu PsOne, entre 2003 e 2004, até chegar ao final. Por isso, embora as versões para Dreamcast e PC apresentassem gráficos com resolução bem superior, a versão do Playstation é a minha favorita. Uma versão do game para o Playstation 2 foi lançada mais tarde, mas apenas para o mercado europeu.

Você pode adquirir a versão PC de The New Nightmare no site Good Old Games por apenas R$ 13,99 (R$ 3,39 durante a promoção de Halloween) e se divertir com o último grande jogo da franquia Alone in the Dark.

(MAIS) 13 RETROGAMES PARA CURTIR O HALLOWEEN (Parte 1)

E já é Halloween de novo, pessoal! Assim como no ano passado, estamos aqui novamente para celebrar a data mais assustadora e divertida do ano. Como em 2020, o Cemetery Games apresenta uma lista com 13 ótimas sugestões de retrogaming de horror para curtir este período mal-assombrado do calendário! Como no ano passado, a lista não está em nenhuma ordem específica. Confira … se tiver coragem!

A parte 2 da nossa lista será publicada amanhã, na noite do Halloween!

Feliz RETROWEEN!

1) DECAP ATTACK (1991, Mega Drive)

Um dos mais memoráveis games com temática de horror do Mega Drive, Decap Attack está celebrando 30 anos de seu lançamento. Desenvolvido pela Vic Tokai, o jogo traz como protagonista o simpático Chuck D. Head, uma múmia sem cabeça com um bizarro rosto no meio da barriga.

O herói foi criado pelo cientista maluco Frank N. Stein e a missão de Chuck é salvar o seu mundo (um arquipélogo de ilhas que formam a imagem de um esqueleto) das garras do terrível demônio Max D. Cap. e suas hordas de monstros. O vilão separou as ilhas em pedaços e cabe a Chuck devolver seu mundo à normalidade. Em vários momentos do jogo, o herói coleta crânios que podem ser usados como arma de arremessso nos inimigos.

Com gráficos bonitos e boa jogabilidade, Decap Attack é ação-plataforma de 16-bits no seu melhor, com uma estética de horror cômico perfeita para comemorar o Halloween.

Se você não tiver acesso a um Mega Drive de verdade e ao cartucho físico, não tem problema, pois não faltam alternativas. Decap Attack está incluído na coletânea Sonic Ultimate Genesis Collection (Playstation 3, Xbox 360) e também pode ser atualmente adquirido para PC na plataforma Steam por míseros R$ 2,19 (é isso aí mesmo, dois reais e dezenove centavos). Agora você não tem mais desculpa para não experimentar esse ótimo exemplar de game de horror da geração 16-bits.

2) THE 7th GUEST (1993, PC)

Possivelmente o game de horror mais assustador e visualmente impressionante de sua época, The 7th Guest foi um marco da transição dos videogames dos bons e velhos cartuchos para o então inovador formato CD-ROM – que, com toda razão, era apontado naqueles tempos como o futuro dos games. Na época, o jogo foi chamado por Bill Gates de “o novo padrão em entretenimento interativo”. Numa época em que a maior parte das pessoas que tinham um PC em casa ainda não tinham drives de CD-ROM em suas máquinas, The 7th Guest serviu como um sedutor chamariz que levou muita gente a se render às possibilidades cinemáticas dessa nova mídia.

Na trama, o jogador encarna um visitante (não identificado no início da história) que vaga pelo interior da sinistríssima Mansão Stauf, solucionando uma série de puzzles macabros e mórbidos e testemunhando flashbacks espectrais de eventos terríveis que aconteceram naquele local no passado.

Obviamente, depois de quase 30 anos, The 7th Guest não é mais nem de perto tão impressionante e assustador como era em 1993. Mas apague todas as luzes de sua casa, jogue o game por quinze ou vinte minutos e você perceberá que ele ainda funciona como um filme de horror interativo bastante eficiente – além de ser um marco da história dos jogos de computador.

Outra boa notícia: você não vai precisar correr atrás de um velho PC 486 DX/4 100Mhz com 8 megas de RAM e Windows 95 e um drive de CD-ROM 4x para poder desfrutar deste velho clássico. The 7th Guest está disponível, em versão atualizada para PCs contemporâneos, na plataforma Good Old Games – e em sua versão comemorativa de aniversário de 25 anos, com jogabilidade aperfeiçoada e outras melhorias pontuais. Tudo isso custando atualmente o precinho camarada de apenas R$ 20,69. Não perca!

3) FRANKENSTEIN’S MONSTER (1983, Atari 2600)

Ótimo game de horror do bom e velho Atari VCS, hoje conhecido como Atari 2600. Aqui, o jogador encarna o Dr. Frankenstein, dentro de um castelo de três andares. O terrível monstro criado pelo cientista está exposto a raios e prestes a ganhar vida, e para impedir que o monstro sai destruindo tudo e todos, nosso intrépido doutor precisa “emparedar” o monstro com cubos encontrados no andar mais baixo do castelo. Nessa corrida contra o tempo, o Dr. Frankenstein precisa passar por aranhas gigantes, fantasmas e morcegos, além de atravessar um lago subterrâneo sem cair nele. Se o arrependido cientista não for rápido o suficiente, o monstro sairá andando descontroladamente em direção à tela (num efeito de primeira pessoa bem legal para os padrões da época), e tudo estará perdido.

Conheci Frankenstein’s Monster por volta de 1991 (no cartucho que eu tinha, o nome do jogo aparecia apenas como “Frankenstein“), e desde logo adorei o jogo. É basicamente um game de ação/aventura com temática de terror, extremamente bem feito para os padrões do Atari. Os gráficos são eficientes, a ambientação é legal e aquela coisa do monstro vir na direção do jogador após o “game over” era algo sem igual no Atari.

A mecânica do jogo é bem repetitiva e a parte dos morcegos (na qual o Dr. Frankenstein precisa passar em meio a centenas de morcegos para chegar até o monstro com a peça que buscou) é um verdadeiro pé no saco. Mas, tirando esses aspectos negativos pontuais, o game é muito bom, indispensável para qualquer fã do velho Atari.

4) HALLOWEEN HARRY (1993, PC)

Lançado pela Apogee para PCs (sistema operacional DOS) em 1993 originalmente como Halloween Harry, o game saiu em outubro daquele ano – portanto, às vésperas do Halloween. No entanto, posteriormente a Apogee ficou preocupada com a possibilidade de que o jogo perdesse seu apelo após a data e que fosse visto apenas como um joguinho “temático” de Halloween, o que potencialmente poderia reduzir o apelo comercial do game durante todo o resto do ano. Por isso, já no ano seguinte, Halloween Harry foi relançado como Alien Carnage.

Halloween Harry/Alien Carnage é um jogo de plataforma side-scrolling no qual o protagonista, Halloween Harry, combate alienígenas que invadiram a Terra e que estão transformando as pessoas em zumbis. O principal objetivo é resgatar as pessoas que os aliens capturaram. Para ajudar na missão, Harry conta com diversas armas diferentes (incluindo um lança-chamas) e um jetpack que permite que o herói alcance plataformas mais altas.

Você lembra do clássico H.E.R.O do Atari? Imagine um H.E.R.O com gráficos bem melhores, armas mais legais e inimigos mais terroríficos e você estará chegando perto de Halloween Harry/Alien Carnage.

Conheci este jogo ali por 1994 ou 1995, na versão que ainda era chamada de Halloween Harry, e gostei muito dele. Desconfio que o que eu tinha naquela época era uma versão “shareware” que só continha a primeira das quatros missões. Ainda assim, a experiência era bem legal.

Claro, o jogo está longe de ser perfeito: a mecânica do jogo acaba sendo um pouco repetitiva depois de um tempo, a jogabilidade é um pouco “dura” e o perfil progressivamente mais “labiríntico” das fases é um desafio para a paciência do jogador. Mas o visual cartunesco, a ambientação divertida e a boa trilha sonora falam mais alto.

O melhor de tudo é que o jogo foi adaptado para rodar em Windows nos PC contemporâneos, sendo que essa versão encontra-se oficialmente disponível DE GRAÇA no site da produtora 3D Realms, sucessora da Apogee. Esta versão roda por meio do emulador DosBox, mas não se preocupe: tudo já vem previamente configurado e pronto para jogar, não sendo necessária nenhuma intimidade com o emulador. Você pode obter sua cópia gratuita de Halloween Harry/Alien Carnage no seguinte link:
https://3drealms.com/catalog/alien-carnage_48/

5) HAUNTED HOUSE (1988, MSX)

Haunted House foi lançado pela Eurosoft para o padrão de computadores MSX (sempre lembrando que o meu primeiro computador foi um MSX Expert da Gradiente em 1992, daí o meu carinho eterno por essa pltaforma). A tela de abertura exibe a face nariguda do protagonista Joe Kowalksi e informa o jogador de que esta se trata da primeira aventura do personagem. Quem é Joe Kowalski? Aparentemente, ninguém sabe e ninguém se importa.

O que importa mesmo é que Haunted House é um dos melhores games de horror do MSX, apresentando gráficos bem trabalhados, uma ótima ambientação, efeitos sonoros interessantes e muita competência na criação de um clima de apreensão. De forma inteligente e criativa, o jogo utiliza os batimentos cardíacos do protagonista como forma de criar tensão para o jogador. Se Joe se aproximar demais de monstros ou fantasmas, os batimentos se aceleram – e se a aceleração for excessiva, nosso herói “bate as botas”.

A missão de Joe é desbravar a casa mal-assombrada do título em busca de sua namorada (sabe Deus como a garota foi parar nesse lugar dos infernos!). Em sua travessia macabra, Joe precisará demonstrar algumas habilidades atléticas de pulo, para evitar quedas potencialmente fatais. Precisará também manter prudente distância de fantasmas, monstros e armadilhas variadas, bem como solucionar alguns puzzles que permitirão que ele siga avançando pelo interior da assustadora casa.

Haunted House tem uma jogabilidade limitada e por vezes até mesmo frustrante, mas o visual, atmosfera e ambientação tornam o jogo simplesmente irresistível para os fãs de games antigos de horror.

Uma curiosidade: o baixinho narigudo Joe Kowalksi protagonizou outros três games lançados pela Eurosoft para o MSX. São eles: Pharao’s Revenge, Vortex Raider e Blow Up. Todas as quatro aventuras do personagem foram lançadas no mesmo ano de 1988. É digno de nota que a própria Eurosoft tirava sarro do misterioso e cartunesco personagem, colocando uma imagem dele acompanhada da frase “quem é esse cara?” na tela de abertura do jogo Vortex Raider.

6) 3D MONSTER MAZE (1982, ZX 81)

Um “survival horror” lançado 15 anos de o termo ser popularizado no vocabulário gamer, 3D Monster Maze foi lançado em 1982 para o microcomputador ZX81 da Sinclair. O micrinho foi o antecessor do hoje célebre padrão ZX Spectrum, e era uma maquininha extremamente limitada em termos de recursos audiovisuais.

A maioria dos games do ZX81 perdia de dez a zero para os jogos do Atari 2600 em termos de gráficos e sons, mas o programador Malcolm Evans conseguiu realizar uma espécie de milagre técnico com 3D Monster Maze. O resultado é um game no qual o jogador caminha com visão em primeira pessoa por um labirinto, enquanto tenta escapar da perseguição de um T-Rex que está a solta no local. É isso aí mesmo, você é perseguido por um dinossauro em um labirinto!

O ponto de partida pode parecer surreal demais para capturar a imaginação do jogador, mas a verdade é que 3D Monster Maze consegue a façanha de criar um clima genuíno de tensão, já que o tiranossauro é rápido e pode aparecer do nada a qualquer momento com a sua bocarra gigantesca. Talvez este jogo seja o pioneiro da história dos videogames em termos de “jump scares” (ou, em bom português coloquial, “cagaços”!).

Inovador e ousado, 3D MONSTER MAZE é frequentemente apontado como o melhor game do ZX81 de todos os tempos (embora eu, particularmente, ainda defenda que essa distinção cabe ao mítico Em Busca dos Tesouros, game nacional de 1986 criado pelo brasileiro Tadeu Curinga). E sim: depois de quase 40 anos, a tensão de não saber aonde está o T-Rex ainda é a mesma – e as aparições súbitas do monstrão ainda assustam!

7) LASER GHOST (1990, ARCADES)

Laser Ghost é um jogo de tiro em primeira pessoa que a Sega lançou nos arcades em 1990, no qual o jogador é um caça-fantasmas que percorre a cidade detonando monstros e assombrações para resgatar uma garotinha que foi raptada pelas criaturas do além.

Eu adorava esse jogo quando era criança (afinal, eu era fã de carteirinha dos filmes e desenho animado dos Caça-Fantasmas!). Depois que o jogo foi desaparecendo dos arcades ao longo dos anos 1990, passei muito tempo sem jogá-lo novamente – até que, em 2006, encontrei a rom do jogo na internet e matei a saudade de Laser Ghost por meio do emulador MAME. O emulador permite o uso do mouse como sendo a pistola do arcade, o que deixa a jogabilidade ótima.

Claro: há um elemento de frustração em Laser Ghost, que é a curtíssima duração do game. Na infância, isso não era problema para mim, pois joguei ele umas poucas vezes e nem lembro se chegava a passar da primeira fase. Além disso, obviamente eu não tinha grana pra ficar torrando muitas fichas na máquina. No emulador, sem esse problema, descobri que o jogo é constituído de apenas seis fases, todas bem curtas. Resultado: virei o jogo em quinze minutos! Ainda assim, é um ótimo entretenimento retrogamer – ainda que breve – para curtir o clima do Halloween!

Ah, não confunda este game dos arcades com o jogo de mesmo nome lançado em 1991 para o Master System. A temática é semelhante, mas são dois jogos completamente diferentes.

8) THE LURKING HORROR (1987, PC)

Baseado nas obras do celebrado escritor de horror H.P. Lovecraft, The Lurking Horror é um adventure-texto lançado em 1987 pela Infocom para PCs (sistema operacional MS-DOS), e também com versões para Apple II, Atari ST, Commodore 64 e para a família de microcomputadores de 8-bits da Atari. Na trama, o jogador encarna um estudante universitário às voltas com a tarefa de concluir um artigo. Para isso, o protagonista encara uma nevasca para acessar o laboratório de informática do campus e concluir o trabalho. O que começa como uma busca por recuperar o arquivo do trabalho acadêmico do protagonista acaba levando a uma série de revelações sobre áreas de estudos mais bizarras e misteriosas, desenvolvidas nos bastidores da universidade.

Que fique claro: The Lurking Horror não é para qualquer um. Se você nunca jogou adventures que são 100% texto e não viveu na época em que este tipo de game era popular, você provavelmente não vai se acertar com esse tipo de jogabilidade – e talvez nem ver qualquer graça em um jogo cuja mecânica basicamente em nada difere de um livro interativo. Mas, se você já tem alguma experiência com text-adventures e gosta da magia retrô desse velho estilo de jogos, então The Lurking Horror é uma excelente recomendação – especialmente para quem é chegado em games de horror.

À época do lançamento do jogo, a Computer Gaming World afirmou, sobre ele, que “Stephen King não teria feito melhor”. A revista de videogames Next Generation, em 1996, classificou The Lurking Horror como o 24º melhor game da história, chamando ele de “o melhor adventure de todos os tempos”. Segundo a revista, “não apenas os puzzles são geniais, mas a escrita é fantástica – uma combinação brilhante do realismo de Stephen King com os horrores inomináveis e sufocantes de H.P. Lovecraft”. A mesma publicação, em 1999, colocou o jogo novamente na sua lista dos 50 melhores games de todos os tempos, destacando que “jogadores letrados que não tenham medo de seus teclados irão encontrar um mundo fantástico dentro deste jogo de adventure de puro texto”. Além disso, em 2004, o portal GameSpy classificou The Lurking Horror como o 10º jogo mais assustador de todos os tempos.

Ficou interessado? Então saiba que você pode jogar The Lurking Horror de graça, rodando no próprio navegador do seu computador, por cortesia do maravilhoso site Internet Archive – que incluiu o game no seu acervo. Apague as luzes, clique no link abaixo e se prepare para mergulhar no mundo do horror lovecraftiano de forma extremamente retrogamer!

https://archive.org/details/msdos_Lurking_Horror_The_1987

1991 – OS 30 ANOS DE UM MARCO NA HISTÓRIA DOS VIDEOGAMES

Chegou a hora de celebrarmos os 30 anos de 1991 – um ano inesquecível para a indústria dos videogames! Ao longo de todo o restante de 2021, falaremos aqui no Cemetery Games sobre muita coisa legal que abalou o mundo dos videogames naquele ano.

E não foi pouca coisa: teve lançamento do Super Nintendo e do Game Gear nos mercados ocidentais, teve estreia dos Simpsons nos videogames, o lançamento do clássico absoluto Super Mario World no ocidente, o nascimento do icônico Sonic the Hedgehog, o surgimento do fenômeno Street Fighter II e uma porrada de lançamentos que hoje são lembrados como verdadeiras lendas, como Quackshot, Streets of Rage, Turtles in Time, Super Ghouls ‘n’ Ghosts, Out of This World, Super Castlevania IV e muitos outros.

E qual será o primeiro game que homenagearemos no “Projeto 1991” aqui do Cemetery Games? Você vai descobrir ainda hoje. Fique ligado!