COMMANDO (1985, Arcades e ZX Spectrum)


Em 1985, a Capcom lançou nos arcades Commando, o game que definiria o estilo run ‘n’ gun com perspectiva vertical de forma semelhante ao que Contra fez em relação aos run ‘n’ gun horizontais (side-scrolling). O sucesso do jogo nos arcades o levou a ser convertido para pelo menos uma dezena de plataformas domésticas da época, do já velho Atari 2600 ao popular NES, passando pelos microcomputadores Amiga, MSX, Commodore 64 e Amstrad CPC.


Em sua maioria, essas adaptações para consoles e micros eram sofríveis. Em alguns casos, como no NES, a versão era boa mas não chegava a se destacar em relação a biblioteca de games do sistema. Mas havia uma exceção: o Commando do saudoso microcomputador britânico ZX Spectrum.


Adaptado pela Elite (uma “peso-pesado” da época em desenvolvimento de games para computadores), o Commando do Spectrum se transformou num clássico tão inesquecível quanto o próprio game original dos arcades. Ele é considerado uma das melhores conversões de arcade para Spectrum já feitas, e aparece sistematicamente em qualquer lista decente de melhores games do velho micro britânico de todos os tempos.


Primeiro, vamos falar um pouco do jogo original: lançado no Japão como “Senjou no Ookami“, o jogo foi rebatizado como “Commando” nos Estados Unidos. Certamente não por coincidência, no mesmo ano estava sendo lançado nos cinemas um filme de mesmo nome estrelado por Arnold Schwarzenegger (conhecido aqui no Brasil como “Comando Para Matar“).

O jogo não tem absolutamente nenhuma relação com o filme, mas como ambos possuem a mesma premissa – um veterano de guerra enfrentando sozinho todo um exército de inimigos – é fácil de compreender as razões comerciais para tal associação. Confesso que, durante muito tempo, também achava que Commando era baseado no filme de mesmo nome.

De qualquer forma, a verdade é que nem mesmo querendo a Capcom teria conseguido fazer um game tão fiel ao tiroteio, à atmosfera “Rambo” e à violência do filme homônimo quanto este. Enquanto que as adaptações de filme para game são geralmente decepcionantes, Commando – que não foi feito pra ser adaptação do filme – acaba ironicamente sendo uma “adaptação” das mais perfeitas já vistas na história dos videogames.


Commando coloca o jogador na pele de Super Joe, o típico macho-alfa-veterano-de-guerra-exalador-de-testosterona-invencível dos filmes de ação dos anos 80. Armado com uma metralhadora com munição infinita, a missão desta máquina de matar ambulante é varrer da face da Terra um exército inimigo. Apesar do natural talento do nosso herói para o extermínio de forças armadas hostis, a missão não será um passeio no parque: a meia dúzia de fases do jogo é pontuada por um grau acentuado de dificuldade, com hordas intermináveis de soldados inimigos aparecendo por todos os lados, atacando com tiros, granadas, motocicletas e até tanques.


A versão do Spectrum, é claro, precisou sacrificar algumas coisas para colocar um game de arcade dentro do limitado hardware de 48k de RAM do micro britânico. Os gráficos são significativamente mais simples e o visual dos cenários se tornou quase monocromático, com algumas poucas cores nas telas para caracterizar o protagonista e seus inimigos. Os efeitos sonoros, por sua vez, se resumem aos sons dos tiros.


No entanto, é aqui que acabam as más notícias em relação ao Commando do Spectrum. Talvez mais do que qualquer outra conversão para plataformas domésticas, esta versão conseguiu preservar a ótima jogabilidade, o ritmo frenético e toda a diversão homicida do arcade. Todas as fases foram igualmente preservadas, ao contrário do que aconteceu com algumas outras adaptações. No Spectrum, é claro, o jogo continua difícil até dizer chega – mas é uma dificuldade “justa”, causada por desafios equilibrados e não decorrentes de jogabilidade limitada ou frustrante.


A jogabilidade do Commando do Spectrum impressiona pela fluidez e dinâmica rápida. Mesmo nos dias atuais, passados mais de 25 anos do seu lançamento, o game permanece divertido e jogável sem maiores dificuldades, tendo envelhecido muito bem – ao contrário de muita coisa que foi lançada nos anos 80.


Toda essa qualidade não passou despercebida pela mídia especializada da época, que jogou todo o confete possível no Commando do Spectrum. O game recebeu uma invejável nota 94% na clássica revista Crash, na qual um dos avaliadores fez as seguintes considerações: “Falando como alguém cuja juventude se passou entre os joysticks de games de arcade, esta é a melhor conversão de arcade que o seu Spectrum possivelmente verá. (…) todas as oito áreas foram copiadas com atenção meticulosa. Todas as colinas, árvores, pontes e tudo o mais estão lá – os soldados até mesmo atacam vindos dos mesmos lugares! A tabela de high scores é a mesma do arcade também, com suas letras giratórias e tudo. A jogabilidade é brilhante (…). Se você quer um jogo para o Natal então não procure mais, esse aqui é sensacional!“.


Segundo o review da revista Sinclair User à época, “Difícil o quanto seja, Commando é também poderosamente viciante. Ele tem uma ação rápida e furiosa, bastante excitante, e a dose certa de suspense em ver o quão longe você consegue ir sem perder todas as suas vidas, bem como de satisfação ao atirar em alvos em movimento. Ele apresenta também uma movimentação suave e gráficos vivos e imaginativos.

Curiosamente, embora Commando sempre tenha sido considerado um dos melhores games do Spectrum, eu nunca cheguei a conhecê-lo na infância. O motivo não podia ser mais banal: meu tio, que tinha um microcomputador nacional compatível com o padrão Spectrum (o TK-95 da Microdigital), tinha Commando gravado numa fita K7. No entanto, o jogo apresentava problemas de “loading” e nunca funcionou. De qualquer forma, eu acho que naquela época a elevada dificuldade do jogo teria me afastado dele. Mas posso estar enganado, afinal de contas o Terra Cresta do Spectrum é ainda mais difícil e eu sempre adorei aquele jogo!


É claro que, no final das contas, o Commando original do arcade é um jogo tecnicamente superior e igualmente uma ótima pedida mesmo para os padrões atuais. Mas eu ainda acho que o Commando do Spectrum é uma experiência retrogamer mais divertida. Os fãs do lendário microcomputador britânico certamente concordarão comigo.

Uma última curiosidade: Commando ganhou uma sequência muito legal nos arcades em 1990, chamada Mercs, que ganhou versões para Mega Drive e Master System. Mas isso é história para uma próxima oportunidade …

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5 pensamentos sobre “COMMANDO (1985, Arcades e ZX Spectrum)

  1. Que bacana isso aí, Caveira… eu nunca joguei nem o Commando original, quanto menos o do Spectrum. Pelas fotos, parece mesmo uma boa conversão (sem ironia, rs… eu entendo as limitações do Spectrum).

    Aliás, eu acho ótimos esses posts que você faz sobre o Spectrum. Uma vez peguei um emulador para brincar um pouco com o computador, e lembro que me enrolei um pouco no início… de repente, se você tiver saco, poderia fazer um post indicando um emulador bacana e dando umas dicas de configuração… *Orakio cara de pau*

    • Adorei a ideia, Gagá! Vou preparar para breve tutoriais sobre como emular o ZX Spectrum e o Commodore 64. 🙂

  2. É tão raro ler sobre o ZX Spectrum em blogs. Adorei o texto. Pra quem não entende muito do sistema – tá, não entendo nada 😀 – é difícil até ver qual jogo é realmente bem-feito e qual foi feito nas coxas. Merece uma partida pra conhecer, com certeza.

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