TUTORIAL – COMO EMULAR ZX SPECTRUM

Comentando o meu recente review sobre o game COMMANDO do microcomputador britânico ZX Spectrum, o Gagá (do Gaga Games, um dos melhores sites/blogs brasileiros de retrogaming da atualidade) sugeriu um tutorial sobre emulação do ZX Spectrum. Sugestão anotada e agora realizada: para quem ainda não é familiarizado com a emulação desta que é uma das plataformas mais amadas pelos retrogamers, aqui vai um tutorial bem mastigadinho sobre como se divertir com os games deste célebre microcomputador.

Para começo de conversa, você deve saber que emular games de computador geralmente não é tão fácil quanto emular games de consoles. O motivo é muito simples: nos velhos tempos, fazer os games rodarem nos próprios micros da época também era naturalmente mais complicado do que jogar nos consoles. A partir do formato estabelecido pelo Atari 2600 em 1978, os videogames sempre funcionaram do mesmo jeito: você coloca um cartucho no aparelho (ou, a partir da 5ª geração de consoles, um CD/DVD/Blu-Ray), liga o videogame e o jogo roda automaticamente (ou apenas com um um apertar de botão, como nos consoles atuais).

Double Dragon II – The Revenge (ZX Spectrum)

Os microcomputadores antigos nunca foram tão simples. Seus games vinham gravados em fitas K7 ou em disquetes, e era preciso digitar uma linha de comando na linguagem BASIC residente na memória do computador para fazer o jogo rodar a partir, digamos, do disquete onde estava gravado. Por exemplo: para rodar o game Pacmania do MSX, você colocava o disquete com o jogo no drive do computador e digitava load “pacmania.bas (ou algo parecido). A exceção eram os jogos em cartucho do MSX, que rodavam do mesmo jeito que um videogame (era só colocar o cartucho com o computador desligado, ligar o aparelho e o jogo rodava automaticamente). Mas, mesmo no MSX, os games em disquete ou fita K7 não funcionavam desse jeito barbadinha.

O ZX Spectrum, no entanto, nunca trabalhou com cartuchos. Isso quer dizer que não existem “roms” de games do Spectrum. “ROM” significa Read Only Memory, e era a memória exclusiva para leitura (não permitia gravação posterior de dados) onde eram armazenados os games nos cartuchos. Os games de Spectrum, por sua vez, existiam em formato disco (disk) ou fita (tape). É por isso que os games do micro são encontrados na internet com os mais diferentes formatos de arquivo (extensão), como por exemplo *.TZX, *.TAP e *.DSK.

The Munsters (ZX Spectrum)

A primeira notícia excelente para quem deseja se aventurar nos velhos games do ZX Spectrum é que a maior parte do acervo de jogos do micro foi transferida para o domínio público, sendo legalmente disponibilizada para download no sensacional site World of Spectrum, um verdadeiro templo sagrado para os fãs do antigo micrinho britânico. Mais de DEZ MIL games estão cadastrados no site, que ainda disponibiliza emuladores, utilitários e bases de dados de livros e informações de hardware. Se você quer se familiarizar com esse velho micro, ter o World of Spectrum salvo entre os favoritos no seu browser é algo indispensável.

Infelizmente, alguns poucos games (como é o caso do clássico Atic Atac e da famosa série Dizzy, por exemplo) ainda têm sua distribuição gratuita proibida. Como essas empresas estúpidas optam por proibir a distribuição do game sem dar alternativas legalmente corretas para as pessoas adquirerem esses títulos, a única coisa que resta a fazer, nesses casos, é dar um jeito de conseguir esses games por fontes “piratas” na internet (o que, naturalmente, é a coisa mais fácil do mundo). É uma pena que algumas empresas do setor insistam em atirar os jogadores na pirataria obrigatória, impedindo que as pessoas tenham qualquer acesso oficial (seja gratuito ou pago) a certos games antigos.

Highway Encounter (ZX Spectrum)

A segunda boa notícia é que existem formas bastante simples de emular o ZX Spectrum. De longe, a mais fácil de todas é o site http://www.zxspectrum.net, um emulador online que roda diretamente no seu browser e oferece dezenas e dezenas de games lançados entre 1982 e 1992 (inclusive alguns games “tributo” feitos recentemente por fãs do Spectrum). O emulador é incrivelmente prático e permite jogar os games do micro sem nenhum esforço: é clicar no game desejado e sair jogando! O esquema de teclas geralmente obedece o padrão tradicional do Spectrum (as teclas Q, A, O, P e a barra de espaços), mas alguns games oferecem a opção para que o jogador defina as teclas do jeito que preferir.

Batman –  The Movie (ZX Spectrum)

Claro, nem tudo são flores nesse emulador online. Existem diversos aspectos negativos: ele não roda em tela cheia, não permite salver imagens do jogo, não tem recursos de “save state/load state”, fica limitado aos games oferecidos pelo próprio emulador e só é compatível com jogos do Spectrum que tinha 48k de memória RAM, que era o modelo mais popular do velho micro britânico. No entanto, vários games de Spectrum só rodam no modelo de 128k, e vários games compatíveis com o 48k  só mostram todo o seu conteúdo (trilha sonora, por exemplo) com 128k.

Starquake (ZX Spectrum)

Outra opção de emulador online é o Qaop, no site http://wizard.ae.krakow.pl/~jb/qaop/. Ele roda com tela quase cheia e é tão amigável quanto o zxspectrum.net, mas infelizmente oferece uma quantidade muito pequena de jogos. Pelo menos estão presentes alguns clássicos como Highway Encounter, Manic Miner e Starquake.

É claro que, se você quiser conhecer a biblioteca de games do Spectrum com toda a qualidade possível (save states, podendo escolher o modelo de Spectrum emulado, etc), é necessário baixar um bom emulador e rodar os jogos direto do seu computador. É aí que começam os problemas. Existe uma infinidade de emuladores de Spectrum, que vão do horrível ao bom, mas a maioria deles apresenta um ou mais problemas sérios: uns são incompatíveis com sistemas operacionais mais modernos, outros são instáveis demais, outros não são mais atualizados há muitos anos, outros só rodam este ou aquele tipo de extensão de arquivo e outros são pobres demais em recursos.

Robocop (ZX Spectrum)

Se você é um usuário de PC acima da média e tem paciência, o negócio é experimentar diversos emuladores como Fuse, SpecX, Speccy, EmuZWin, ZX Spin e tantos outros. Talvez algum deles caia no seu gosto. Mas eu adianto a minha opinião: todos eles me decepcionaram de alguma forma, e nunca adotei nenhum como meu emulador preferencial de Spectrum.

Enduro Racer (ZX Spectrum)

Mas não corte os pulsos ainda, todas essas dificuldades têm uma solução simples: o emulador SPECTACULATOR. Disponível no site http://www.spectaculator.com, esse espetacular emulador faz juz ao nome e oferece tudo o que um retrogamer pode querer em termos de emulação de Spectrum: compatibilidade com os mais diferentes formatos de jogos, inúmeras opções de configuração de sons e gráficos, emulação de todos os modelos de Spectrum que já exitiram, recursos de save state/load state, exibição em tela cheia … uma maravilha!


Mas, como pão de pobre sempre cai com a margarina virada para o chão, é ÓBVIO que toda essa tranquilidade não vem de graça: o Spectaculator só pode ser usado gratuitamente por 30 dias, perdendo sua funcionalidade depois desse período. O jeito é comprar a versão paga, que custa salgados 30 dólares (cerca de R$ 50,00). Pagar por um emulador parece algo meio sem fundamento, mas nesse caso é bom lembrar que a vasta maioria dos games de Spectrum pode ser baixada gratuitamente sem nenhum tipo de infração de copyright, tudo legalizado. A meu ver, trata-se de um investimento que vale muito à pena.

Se você quer um emulador “offline” sem pagar pelo Spectaculator, também existem alternativas. A primeira, e mais óbvia, é baixar por aí uma versão “full” pirata do Spectaculator (não estou querendo incentivar ninguém à pirataria, mas é óbvio que a opção existe). Outra opção é recorrer a outros emuladores menos atuais e/ou eficientes.


A minha sugestão, nesse caso, seria o ZX32. Trata-se de um emulador de Spectrum que já foi muito bom, mas que caiu no esquecimento por falta de atualização (faz mais de 10 anos que não é atualizado). Apesar disso, ele tem a vantagem de ter a maioria dos recursos que o Spectaculator tem (save state, full screen, compatibilidade com muitos formatos de jogos, etc), e ainda por cima é 100% gratuito. Para que o emulador rode bem, é necessário alterar as propriedades do programa no Windows para que ele rode em 256 cores (é só clicar no arquivo executável com o botão direito do mouse e clicar em “propriedades”). Você pode baixar o ZX32 aqui: http://www.cryptacet.com/spectrum/zx32103.exe

La Abadia Del Crimen (ZX Spectrum)

Tendo um bom emulador e alguns jogos no seu computador, a execução dos mesmos é relativamente simples, semelhante ao que se vê nos emuladores de videogames como Mega Drive ou Nintendo 8-bits. Num Spectrum de verdade, um jogo em fita K7 precisava de vários minutos para ser carregado no computador, mas os emuladores geralmente abreviam automaticamente esse carregamento lento. Apesar disso, a maioria deles tem a opção de manter o carregamento original, inclusive com as listras coloridas e o barulho das informações da fita K7 sendo processadas – mas só os saudosistas mais doentes do mundo irão querer reviver esse antigo suplício. Os arquivos de games do Spectrum disponibilizados na internet normalmente já vêm configurados para apresentar um carregamento tão automático quanto possível, o que ajuda bastante e evita que o jogador precise se valer de linhas de comando para rodar os jogos.

Sai Combat (ZX Spectrum)

Por último, mas não menos importante, a dúvida para o iniciante é: o que jogar? Numa plataforma que foi agraciada com milhares de games ao longo de mais de 10 anos de vida útil, é preciso ser um pouco seletivo. Para saber o que vale à pena jogar no Spectrum, há uma série de fontes que podem ser consultadas. Uma delas, é claro, é o nosso Cemetery Games, onde até o momento nós já resenhamos uma série de grandes games do Spectrum (como Chase H.Q, Robocop, Commando, Atic Atac, Terra Cresta, Batman – The Movie, Crystal Castles e Astro Marine Corps), alguns meia-boca como Ghostbusters II e também  inevitáveis porcarias como Friday the 13th, Big Trouble in Little China, Out Run, The A-Team e Back to the Future.

Terra Cresta (ZX Spectrum)

Outra fonte confiável é a lista dos 100 melhores games de Spectrum feita pelos visitantes do World of Spectrum. A maior parte do filé do micrinho britânico está nessa lista, que pode ser acessada aqui: http://www.worldofspectrum.org/bestgames.html

Por fim, é impossível não recomendar o ótimo livro “The ZX Spectrum Book – 1982 to 199X“, de Andrew Rollings, que faz uma relação dos 200 melhores jogos do Spectrum. Você pode fazer o download integral do livro neste link: ftp://ftp.worldofspectrum.org/pub/sinclair/books/ZXSpectrumBook-1982To199xThe.pdf 

Saboteur (ZX Spectrum)

Por enquanto era isso, pessoal! Vida longa para o bom e velho ZX Spectrum, e espero que vocês tenham muita diversão com as pérolas eternamente divertidas do saudoso micrinho britânico.

COMMANDO (1985, Arcades e ZX Spectrum)


Em 1985, a Capcom lançou nos arcades Commando, o game que definiria o estilo run ‘n’ gun com perspectiva vertical de forma semelhante ao que Contra fez em relação aos run ‘n’ gun horizontais (side-scrolling). O sucesso do jogo nos arcades o levou a ser convertido para pelo menos uma dezena de plataformas domésticas da época, do já velho Atari 2600 ao popular NES, passando pelos microcomputadores Amiga, MSX, Commodore 64 e Amstrad CPC.


Em sua maioria, essas adaptações para consoles e micros eram sofríveis. Em alguns casos, como no NES, a versão era boa mas não chegava a se destacar em relação a biblioteca de games do sistema. Mas havia uma exceção: o Commando do saudoso microcomputador britânico ZX Spectrum.


Adaptado pela Elite (uma “peso-pesado” da época em desenvolvimento de games para computadores), o Commando do Spectrum se transformou num clássico tão inesquecível quanto o próprio game original dos arcades. Ele é considerado uma das melhores conversões de arcade para Spectrum já feitas, e aparece sistematicamente em qualquer lista decente de melhores games do velho micro britânico de todos os tempos.


Primeiro, vamos falar um pouco do jogo original: lançado no Japão como “Senjou no Ookami“, o jogo foi rebatizado como “Commando” nos Estados Unidos. Certamente não por coincidência, no mesmo ano estava sendo lançado nos cinemas um filme de mesmo nome estrelado por Arnold Schwarzenegger (conhecido aqui no Brasil como “Comando Para Matar“).

O jogo não tem absolutamente nenhuma relação com o filme, mas como ambos possuem a mesma premissa – um veterano de guerra enfrentando sozinho todo um exército de inimigos – é fácil de compreender as razões comerciais para tal associação. Confesso que, durante muito tempo, também achava que Commando era baseado no filme de mesmo nome.

De qualquer forma, a verdade é que nem mesmo querendo a Capcom teria conseguido fazer um game tão fiel ao tiroteio, à atmosfera “Rambo” e à violência do filme homônimo quanto este. Enquanto que as adaptações de filme para game são geralmente decepcionantes, Commando – que não foi feito pra ser adaptação do filme – acaba ironicamente sendo uma “adaptação” das mais perfeitas já vistas na história dos videogames.


Commando coloca o jogador na pele de Super Joe, o típico macho-alfa-veterano-de-guerra-exalador-de-testosterona-invencível dos filmes de ação dos anos 80. Armado com uma metralhadora com munição infinita, a missão desta máquina de matar ambulante é varrer da face da Terra um exército inimigo. Apesar do natural talento do nosso herói para o extermínio de forças armadas hostis, a missão não será um passeio no parque: a meia dúzia de fases do jogo é pontuada por um grau acentuado de dificuldade, com hordas intermináveis de soldados inimigos aparecendo por todos os lados, atacando com tiros, granadas, motocicletas e até tanques.


A versão do Spectrum, é claro, precisou sacrificar algumas coisas para colocar um game de arcade dentro do limitado hardware de 48k de RAM do micro britânico. Os gráficos são significativamente mais simples e o visual dos cenários se tornou quase monocromático, com algumas poucas cores nas telas para caracterizar o protagonista e seus inimigos. Os efeitos sonoros, por sua vez, se resumem aos sons dos tiros.


No entanto, é aqui que acabam as más notícias em relação ao Commando do Spectrum. Talvez mais do que qualquer outra conversão para plataformas domésticas, esta versão conseguiu preservar a ótima jogabilidade, o ritmo frenético e toda a diversão homicida do arcade. Todas as fases foram igualmente preservadas, ao contrário do que aconteceu com algumas outras adaptações. No Spectrum, é claro, o jogo continua difícil até dizer chega – mas é uma dificuldade “justa”, causada por desafios equilibrados e não decorrentes de jogabilidade limitada ou frustrante.


A jogabilidade do Commando do Spectrum impressiona pela fluidez e dinâmica rápida. Mesmo nos dias atuais, passados mais de 25 anos do seu lançamento, o game permanece divertido e jogável sem maiores dificuldades, tendo envelhecido muito bem – ao contrário de muita coisa que foi lançada nos anos 80.


Toda essa qualidade não passou despercebida pela mídia especializada da época, que jogou todo o confete possível no Commando do Spectrum. O game recebeu uma invejável nota 94% na clássica revista Crash, na qual um dos avaliadores fez as seguintes considerações: “Falando como alguém cuja juventude se passou entre os joysticks de games de arcade, esta é a melhor conversão de arcade que o seu Spectrum possivelmente verá. (…) todas as oito áreas foram copiadas com atenção meticulosa. Todas as colinas, árvores, pontes e tudo o mais estão lá – os soldados até mesmo atacam vindos dos mesmos lugares! A tabela de high scores é a mesma do arcade também, com suas letras giratórias e tudo. A jogabilidade é brilhante (…). Se você quer um jogo para o Natal então não procure mais, esse aqui é sensacional!“.


Segundo o review da revista Sinclair User à época, “Difícil o quanto seja, Commando é também poderosamente viciante. Ele tem uma ação rápida e furiosa, bastante excitante, e a dose certa de suspense em ver o quão longe você consegue ir sem perder todas as suas vidas, bem como de satisfação ao atirar em alvos em movimento. Ele apresenta também uma movimentação suave e gráficos vivos e imaginativos.

Curiosamente, embora Commando sempre tenha sido considerado um dos melhores games do Spectrum, eu nunca cheguei a conhecê-lo na infância. O motivo não podia ser mais banal: meu tio, que tinha um microcomputador nacional compatível com o padrão Spectrum (o TK-95 da Microdigital), tinha Commando gravado numa fita K7. No entanto, o jogo apresentava problemas de “loading” e nunca funcionou. De qualquer forma, eu acho que naquela época a elevada dificuldade do jogo teria me afastado dele. Mas posso estar enganado, afinal de contas o Terra Cresta do Spectrum é ainda mais difícil e eu sempre adorei aquele jogo!


É claro que, no final das contas, o Commando original do arcade é um jogo tecnicamente superior e igualmente uma ótima pedida mesmo para os padrões atuais. Mas eu ainda acho que o Commando do Spectrum é uma experiência retrogamer mais divertida. Os fãs do lendário microcomputador britânico certamente concordarão comigo.

Uma última curiosidade: Commando ganhou uma sequência muito legal nos arcades em 1990, chamada Mercs, que ganhou versões para Mega Drive e Master System. Mas isso é história para uma próxima oportunidade …

CHASE H.Q (1988, Arcades e ZX Spectrum)

Miami Vice foi a série de TV símbolo da cultura pop dos anos 80. Policiais bacanas com roupas descoladas, em carrões, perseguindo criminosos em belos cenários com músicas cheias de feeling como pano de fundo – tudo em Miami Vice transpirava o que era o pop oitentista e, ao mesmo tempo, definia como ele seria dali em diante. Quando, em 2002, a produtora Rockstar quis fazer um episódio da série Grand Theft Auto situada nos anos 80, não pensou duas vezes antes de copiar a estética de Miami Vice de cima a baixo, situando o jogo na fictícia cidade de Vice City, com todas as homenagens e referências possíveis e imagináveis à antiga série de TV.


No entanto, o lado triste dessa história é que a série Miami Vice nunca rendeu nenhum jogo de videogame que presta. Um jogo horroroso baseado na série foi lançado em 1986 para os microcomputadores Commodore 64, Amstrad CPC e ZX Spectrum, e muito tempo depois, em 2004, a produtora Davilex lançou outra abominação chamada Miami Vice para Playstation 2 e PCs. Foi só em 2006 que um bom jogo (muito bom, aliás!) chamado Miami Vice – The Game veio a ser lançado (somente para o PSP), mas ele já era baseado no filme de mesmo nome, e não na série de TV.

Tá, mas – afinal de contas – por que diabos nós estamos falando tanto sobre Miami Vice?!? Ocorre que, no final dos anos 80, um game lançado pela Taito se inspirou claramente na série de TV e conseguiu capturar muito bem o espírito da série, o que nenhum game antes dele havia feito. Trata-se do primeiro game de perseguição policial automobilística a fazer grande sucesso e, de certa forma, definir o gênero. O nome deste game? CHASE H.Q!


Em Chase H.Q, o jogador assume o controle dos policiais Tony Gibson e Raymond Broady (sendo um branco e um negro, é óbvio – no melhor estilo Miami Vice). Os heróis são membros da Chase Special Investigation Department, que aparentemente é um departamento da polícia especializado em correr atrás de criminosos em alta velocidade.


Tecnicamente, o jogo é um Out Run combinado com perseguição policial. Logo se vê que o clássico de corrida da Sega influenciou muito Chase H.Q, seja nos carros estilosos, seja na preocupação com a variedade dos cenários. A novidade aqui ficava por conta do elemento da perseguição policial, que não se resumia a meramente “alcançar” os bandidos dentro do tempo disponível. Nada disso: ao chegar perto do carro do criminoso, é necessário abalroar o veículo várias vezes, até que o automóvel do meliante pegue fogo e ele seja obrigado a se entregar. Um procedimento policial nada convencional, não acham?


A mecânica do jogo é a seguinte: no começo de cada fase, Nancy – a aliada dos heróis junto à sede da Chase (ou seja, a Chase Headquarters que dá nome ao jogo) – informa a dupla de policiais que há um criminoso em fuga. Os heróis perseguem o bandido até detoná-lo, prendem o sujeito e lá vem uma nova ligação de Nancy. São cinco fases dentro desse esquema, na qual os agentes da lei perseguirão Ralph (o Estripador de Idaho); Carlos (o ladrão armado de Nova York); uma gangue de bandidos de Chicago; um sequestrador de Los Angeles e, por último, nada mais nada menos do que um espião do Leste Europeu (lembre-se, o game é da época da Guerra Fria). E não pense que a missão será bolinho por causa que são apenas cinco fases. Na verdade, você vai precisar suar muito a camiseta para chegar na segunda ou terceira fase, pois o game é bastante desafiante.

Chase H.Q foi muito bem recebido por crítica e público, e deu origem a duas sequências nos arcades, que não se tornaram tão conhecidas: Special Criminal Investigation (1989) e Super Chase: Criminal Termination (1992). A primeira sequência ganhou várias conversões domésticas (Amiga, Amstrad CPC, Atari ST, Commodore 64, PC-DOS, Master System, Turbografx 16, ZX Spectrum), enquanto que a segunda ficou restrita aos arcades. Curiosamente, em 1993 a Taito lançou Super Chase H.Q para o Super Nes, mas – apesar do nome – o jogo é mais baseado em Criminal Termination do que propriamente no Chase H.Q original.


No geral, as conversões de Chase H.Q para plataformas domésticas não fizeram tanto sucesso. A célebre exceção, no entanto, vai para a versão do game lançada em 1989 para o microcomputador ZX Spectrum (a versão para Amstrad CPC foi muito elogiada também). Lançada pela Ocean Software ao invés da Taito, a versão do Spectrum foi aclamada na época de seu lançamento, e até hoje aparece sistematicamente em qualquer lista decente de melhores games de Spectrum de todos os tempos.

Frequentemente considerado como o melhor jogo de corrida do microcomputador britânico, o Chase H.Q do Spectrum ficou em número 1 na lista dos 100 Melhores Games de Spectrum de Todos os Tempos feita pelos leitores da revista Your Sinclair (uma das três revistas voltadas ao Spectrum mais tradicionais da época, junto com a Crash Magazine e a Sinclair User). Falando nelas, o Chase H.Q do Spectrum tirou nota 9.5 na Crash e 9.0 na Sinclair User.


O game do Spectrum, obviamente, não tem a mesma qualidade visual do arcade. O seu maior mérito, no entanto, é de ter conseguido adaptar a atmosfera e a jogabilidade do arcade dentro das limitações do hardware do Spectrum (que já dava sinais de cansaço na época). Apesar do visual monocromático, esta versão de Chase H.Q ficou desafiante, divertida e empolgante, o que é bem mais do que se pode dizer, por exemplo, da versão do Master System.


Enfim, Chase H.Q não é Miami Vice. Mas, com certeza, foi o mais perto que a célebre série de TV chegou de ser traduzida para um bom jogo de videogame na época da terceira geração de consoles. Claro que, muito tempo mais tarde, todos nós fomos brindados com o maravilhoso GTA – Vice City, mas isso já é outra história …

Chase H.Q (Commodore 64)

Chase H.Q (Master System)

Chase H.Q (NES)

Chase H.Q (Game Boy)

Chase H.Q (Turbografx 16)

FRIDAY THE 13th (1986, COMMODORE 64/ZX SPECTRUM)

Desde o surgimento do primeiro filme em 1980, a cinessérie Sexta-Feira 13 (Friday the 13th) se transformou numa das mais famosas e memoráveis de toda a história do cinema de horror. O protagonista/vilão da série, o sinistro serial-killer Jason Voorhees, foi um dos personagens mais icônicos do cinemão hollywoodiano dos anos 80, e hoje figura em qualquer lista decente de monstros mais queridos da ficção de terror de todos os tempos.

Além da imensa influência – basta ver a quantidade de “slasher movies” que Halloween (1978) e Sexta-Feira 13 inspiraram desde então, estima-se que a série de 12 filmes (que inclui o “crossoverFreddy vs Jason de 2003 e o “rebootFriday the 13th de 2009) tenha faturado 671.5 milhões de dólares apenas no mercado americano desde 1980, o que coloca Sexta-Feira 13 como a série de filmes de horror mais rentável nos EUA em todos os tempos.


Bem, mas e quanto aos games? Todo esse sucesso deve ter gerado uma AVALANCHE de videogames baseados nos filmes da série, certo? Se alguém perguntasse a você quantos games baseados nos filmes da série foram lançados entre 1980 e 2011, quantos você “chutaria”? Doze, já que são doze filmes na série? Treze, já que estamos falando de Sexta-Feira 13? Uma meia dúzia, mais ou menos? Ou quem sabe um para cada console e microcomputador oitentista que existiu?

Pode até parecer difícil de acreditar, mas a resposta para essa pergunta é incrivelmente conservadora: DOIS games! Sim, apesar de todo o imenso sucesso e apesar da extensa lista de filmes lançados ao longo de três décadas,  apenas dois míseros games baseados em Sexta-Feira 13 foram lançados até hoje.


O mais famoso deles, de longe, é o FRIDAY THE 13th do Nintendo 8-bits (NES), lançado pela LJN em 1988. Nada mais natural, já que o NES foi o videogame mais popular de sua época. Para quem não lembra, uma das primeiras coisas publicadas aqui no Cemetery Games, em 2009, foi uma pequena análise do Sexta-Feira 13 do NES. Confira aqui.

O jogo do NES nunca foi unanimidade, tendo sido massacrado pela crítica na época. A jogabilidade era meio tosca e o game no geral era frustrante e um pouco aborrecido, apesar de algumas qualidades (ambientação, sustos eventuais, etc) que o mantiveram no coração de alguns retrogamers mais trouxas (como eu, por exemplo). Se você está com o seu inglês em dia, não perca o hilário vídeo-review que o famoso Angry Videogame Nerd fez do jogo há alguns anos atrás: http://cinemassacre.com/2006/10/13/friday-the-13th-2/


Muita gente, erroneamente, acredita que existiu um Sexta-Feira 13 para o Atari 2600. Aqui no Brasil, esse equívoco comum em grande parte se deve ao fato de que o game “Halloween” era vendido por aqui com o nome de “Sexta-Feira 13” (assim mesmo, com o título em português). No entanto, a espantosa verdade é que não há nenhum game estrelado por Jason no Atari, apesar de outros filmes de horror da época – como Halloween e O Massacre da Serra Elétrica – terem dado as caras no console.

O conhecido game do NES, além disso, é o único lançado para um videogame propriamente dito, já que o único outro game baseado nos filmes da série Sexta-Feira 13 foi lançado em 1986, pela softhouse Domark, apenas para os microcomputadores Commodore 64, ZX Spectrum e Amstrad CPC. Assim como o game do NES, o Friday the 13th dos computadores desagradou profundamente a crítica especializada e divide a opinião dos retrogames até hoje – uns admiram e respeitam, outros abominam.


Antes de mais nada, é preciso esclarecer que o jogo, apesar de estar longe de ser perfeito, pelo menos se mostra com todo o seu potencial no C64 e no Amstrad CPC. A versão do Spectrum é tão ruim, mas TÃO ruim, que simplesmente não existe nenhuma pesssoa sã no mundo que defenda o jogo. Considerando que o game do Commodore 64 já é considerado por muitos como sendo uma porcaria e que a versão do Spectrum é muito inferior, torna-se até desnecessário dizer que é altamente recomendável que você se mantenha LONGE do game do Spectrum!


As versões do Amstrad CPC e do C64 são equivalentes, e pecam principalmente pelos gráficos fajutos e pela jogabilidade pouco interessante. Basicamente, o jogador controla um dos veranistas de férias no sinistro camping Crystal Lake, e deve explorar o local a fim de procurar armas, localizar Jason e matá-lo antes que ele assassine seus amigos adolescentes. O mais assustador nesse game, no entanto, são as bizarrices e as liberdades criativas tomadas pelos programadores. Você tem coragem e estômago forte para encarar essas loucuras? OK, então vamos lá …


Em primeiro lugar, nesse game Jason não está escondido em alguma vala, no meio do mato ou atrás de uma porta. Não: ele está andando em algum lugar do camping disfarçado como um amigo seu! É, é isso aí mesmo, você leu direito: nesse game, Jason virou uma espécie de mestre dos disfarces, no melhor estilo “espião”. Não deve ser fácil para um sujeito grande, fedido e usando uma máscara de hóquei se disfarçar de adolescente …


Mas a sandice continua! Ao ser desmascarado (ou seria “mascarado”?), Jason se revela na sua verdadeira forma: um enorme maníaco do mato usando máscara de hóquei, certo? Errado! Nesse game, Jason é um boa-pinta de cabelo moreno que veste uma camiseta preta estilo mamãe-quero-ser-forte. É, eu juro, você não está alucinando: transformaram o Jason numa espécie de Reynaldo Gianecchini em versão homicida. E você achava que O Exorcista é que era aterrorizante, né?


Já que os programadores do game aparentemente estavam usando algumas drogas bem poderosas na época, é claro que a imaginação fumacenta deles não poupou também o bom e velho camping Crystal Lake. Andando pelo lugar nesse game, nós descobrimos que o camping conta não apenas com casas, florestas e celeiros mas também com uma enorme igreja, um cemitério desolado e uma coisa que parece uma biblioteca. Que luxo de acampamento, hein? Só faltou uma lan-house e um shopping center!


As músicas do game também são uma coisa de louco, e consistem basicamente na clássica trilha de O Fantasma da Ópera (?!) e na marcha nupcial (!?!?). Falando nisso, eu já comentei que os programadores do jogo provavelmente abusavam das drogas na época?

Diversas armas podem ser encontradas pelos cenários, mas o item que mais chama atenção é a cruz. Até onde pude entender, a cruz pode ser usada para identificar qual de seus amigos é o Jason disfarçado. Aparentemente, os programadores do game viram o filme e não entenderam que Jason não é um vampiro.


Outro jeito igualmente bizarro de “testar” seus amigos é atacando eles com golpes de faca ou machado. Legal, né? Quem precisa de Jason, quando o próprio “mocinho” do jogo precisa sair pelo camping dando machadadas em seus amigos? Se você acerta um golpe num amigo normal, nada acontece (mas cuidado para não acabar matando o infeliz). Mas, se o amigo na verdade for Jason, ele se revelará em sua verdadeira forma (o moreno de roupa preta justinha, lembra?) e então você deverá golpeá-lo até a morte. A morte dele, de preferência.

Com essa mecânica simples (não há nada para fazer além de andar, arranjar uma arma e procurar Jason), gráficos ruins e delírios narrativos, não é à toa que esse Friday the 13th dos computadores tenha sido tão espinafrado pela crítica. Mas verdade seja dita: o game tem seus méritos. O mais evidente deles é a sua efetiva capacidade de assustar o jogador. Na verdade, parece que os programadores de Friday the 13th não tinham outra meta além de dar uns bons “cagaços” no jogador.


Um dos recursos mais eficientes para tanto é o caprichado grito de mulher que surge subitamente quando um dos personagens é assassinado por Jason. Você está caminhando no mato, procurando Jason, jogando o game sozinho no seu quarto de madrugada com as luzes apagadas e, do nada, um grito agudo e desesperado irrompe do computador. Funciona razoavelmente bem até hoje, mas na época era uma coisa tremendamente aterrorizante, pois qualquer efeito de digitalização de voz (por rudimentar que fosse) era incomum e impressionante naqueles tempos. Muitos retrogamers que cresceram jogando no Commodore 64 se borram de medo desse game até hoje, basicamente por causa do gritinho sinistro. A única coisa esquisita é que, quando você mata Jason, o grito também ecoa. Será que sou só eu que acho estranho ver Jason gritando – e ainda por cima com voz de garota – enquanto leva um golpe fatal?


Ainda achando que não estavam apavorando o suficiente, os insanos programadores do jogo incluíram umas “cut scenes” sinistras que aparecem na tela aleatoriamente e sem aviso, de quando em quando. Você está caminhando no mato, procurando Jason, jogando o game sozinho no seu quarto de madrugada com as luzes apagadas e, do nada, a tela inteira dá lugar à imagem de um homem levando um golpe de facão na sua cabeça ensanguentada. É, posso acreditar que esse game tenha arruinado as noites de sono de muitas crianças nos anos 80 …


Enfim, o Friday the 13th do C64 consegue criar uma atmosfera competente de terror, bem como dar uns sustos eventuais no jogador. Está muito longe de ser um jogo REALMENTE bom, mas é compreensível que tanta gente tenha boas memórias dele até hoje e o respeite enquanto game de terror, apesar das inegáveis deficiências do game. Pena que o ZX Spectrum não conseguiu reproduzir a experiência a contento, arruinando completamente a experiência que já não era perfeita no Commodore 64.

O Friday the 13th do Spectrum é mais feio do que um acidente de trem!

Fica, é claro, a grande pergunta no ar: já que só existem dois games baseados em Sexta-Feira 13, qual deles é o melhor? O criticado, espinafrado e conhecido game do NES, ou este criticado, espinafrado e obscuro game do Commodore 64? Bem: se você é fã da série e está disposto a entrar no clima de terror precário desses games sem se importar demais com a jogabilidade, ambos os games merecem atenção e rendem umas boas partidas. Mas, se você não é assim tão fã do Jason e acha que a vida já é suficientemente aterrorizante sem gráficos ruins e jogabilidade vacilante, talvez o melhor seja evitar ambos os games e torcer para que no futuro, quem sabe, alguém resolva lançar um game de Sexta-Feira 13 que seja REALMENTE bom.