TEENAGE MUTANT HERO TURTLES (ZX Spectrum/MSX, 1990)

Neste ano de 2020, o primeiro filme das Tartarugas Ninja comemora impressionantes 30 anos! Parece inacreditável. Ainda lembro de, em algum ponto de 1991, ter alugado ele em VHS numa locadora para assistir em casa. Eu tinha entre nove e dez anos e adorei o filme.

Embora as Tartarugas Ninja tenham feito o seu debut nos EUA em 1984, em histórias em quadrinhos, foi no começo dos anos 1990 que os personagens atingiram o ápice de sua popularidade. Entre 1989 e 1992, foram dois filmes nos cinemas, muitos brinquedos e action figures, uma série animada (que estreou em 1987 mas que atingiu o pico do sucesso alguns anos depois) e quatro games de muito sucesso, que fizeram muito barulho na época e que se tornaram lendários.

O primeiro destes jogos foi lançado pela Konami em 1989 para arcades. Considerado até hoje com um dos games de estilo beat’em up mais amados de todos os tempos, ele foi adaptado com maestria para o Nintendo 8-bits (NES) dois anos depois, em 1991, com o título Teenage Mutant Ninja Turtles II: The Arcade Game. Conversões menos satisfatórias também foram lançadas para vários computadores domésticos da época, como Commodore 64, ZX Spectrum, PC e Amiga.

Hey, mas espera um pouco. O primeiro jogo das Tartarugas Ninja chegou às plataformas domésticas com o nome “Teenage Mutant Ninja Turtles II“? É isso mesmo. O negócio é o seguinte: enquanto que, nos arcades, o primeiro jogo das tartarugas foi o hoje cultuado beat’em up de 1989, nas plataformas domésticas a franquia debutou com um jogo totalmente diferente, embora igualmente desenvolvido pela Konami. Para confundir ainda mais as coisas, ele recebeu o mesmíssimo título do jogo do arcade: Teenage Mutant Ninja Turtles.

A plataforma de estreia deste primeiro TMNT para máquinas domésticas foi o NES, que à época era (de longe) o videogame mais popular que existia no mercado. Ao contrário do título do arcade, que era um jogo de dar porrada sem parar, o game do NES era mais elaborado conceitualmente, porém (bem) menos impressionante sob o aspecto visual e sonoro.

O jogo era um “mix” de aventura com ação, com o jogador navegando por mapas de missão com visão aérea e a partir dali indo a locais que levavam a níveis de ação com progressão lateral. Não era um jogo tão intuitivo e imediatamente agradável como o clássico dos arcades.

Como resultado disso, até hoje os saudosistas do NES e retrogamers contemporâneos se dividem bastante quando relembram do TMNT do NES. Alguns acham que o jogo tinha o mérito de ter uma mecânica diferente e menos repetitiva, enquanto outros acham que as Tartarugas Ninja só mostraram todo o seu verdadeiro potencial no NES em 1991, quando o jogo do arcade foi (maravilhosamente bem) adaptado para o console.

Em 1990, o jogo do NES foi adaptado para diversos computadores, incluindo Commodore 64, Amiga, Atari ST e ZX Spectrum. E é aqui que a coisa fica interessante.

Embora, tecnicamente, a versão para o ZX Spectrum seja mais simples em termos de gráficos e sons do que o original do NES, na prática o resultado final foi um jogo mais fácil (ou “menos difícil”), menos frustrante e mais divertido do que o original. No fim das contas, a versão do ZX Spectrum era um grande jogo para os padrões da plataforma. A popular revista britânica Your Sinclair, que era especializada no Spectrum, deu nota 90 para o game. Veja o que o pessoal da revista falou sobre a comparação com o jogo do NES (edição nº 61, de janeiro de 1991):

Então, qual é o veredito? Bem, para mim, Turtles tem sido uma surpresa muito agradável. Rumores circularam pela indústria por muito tempo, dando conta de que o jogo era realmente ruim – aparentemente, as versões do Nintendo americano e do Amiga são absolutamente terríveis ou coisa que o valha, e este jogo é baseado naquelas versões – mas não: a Probe modificou bastante a coisa, e o produto final do Spectrum possui apenas uma pequena semelhança com aqueles títulos. De fato, é realmente muito legal. Não espere o jogo mais aprofundado de todos os tempos – mas, para o que pretende ser, é mais ou menos perfeito. Eu achei uma diversão excelente.

A revista britânica Crash (que era a principal referência da época quando o assunto eram jogos do ZX Spectrum) resenhou TMHT em sua edição nº 84, de janeiro de 1991, e deu nota 80 para o jogo. Veja o que o pessoal da revista escreveu:

O jogo pode ser muito frustrante. Você leva muito dano e acaba sendo morto de novo nos mesmos lugares até arrancar os cabelos. Mesmo assim, depois de se acalmar, você definitivamente voltará para mais uma dose porque a jogabilidade é tãããão viciante. Teenage Mutant Hero Turtles é a melhor diversão que eu tive em muito tempo. No entanto, depois de apenas alguns dias eu completei o jogo, então algumas missões a mais não teriam sido uma má ideia. De qualquer forma, Turtles ainda assim é altamente recomendado“.

A esta altura, você deve estar estranhando o fato de eu estar falando tanto sobre a versão de TMHT do ZX Spectrum, já que o título deste review sugere que o objeto da nossa análise seria também o TMHT do microcomputador MSX. A explicação é muito simples: a versão de TMHT do MSX é essencialmente uma conversão direta do ZX Spectrum, idêntica de ponta a ponta e essencialmente indistinguível do jogo do clássico micro britânico.

Ok, ok, admito: eu posso ter exagerado. De fato, há uma “pequena” diferença da versão MSX em relação ao TMNT do Spectrum. Como ocorria com 99% das conversões de games de Spectrum para MSX, a versão deste último é mais lenta do que a do Spectrum. Bem mais lenta seria o termo correto. Enquanto o jogo do Spectrum é rápido e ágil, a ação no MSX parece se desenrolar na metade da velocidade. Não é nada terrível ao ponto de inviabilizar a diversão e não incomoda tanto depois que você joga um pouco e se acostuma com a animação mais lenta. Mas, se você vê vídeos das duas versões rodando ao mesmo tempo, dá pra levar um susto com a diferença de velocidade. O irônico disso tudo é que, tecnicamente, o MSX (mesmo em seu modelo 1.0, mais básico) era sensivelmente superior em termos de hardware em relação ao ZX Spectrum. No entanto, por falta de otimização, as conversões diretas geralmente falhavam em utilizar adequadamente todo o potencial do MSX e o resultado eram jogos idênticos em visual e sons, mas sem a mesma animação rápida (vide exemplos de Robocop, Indiana Jones and the Last Crusade, etc).

Em termos de experiências pessoais, embora eu tenha jogado vários games de ZX Spectrum entre o fim dos anos 1980 e começo dos 1990 (meu tio, na época, comprou um TK-95 da Microdigital, um dos clones brasileiros do micro britânico), infelizmente não cheguei a ter contato com o TMHT do Spectrum. Só fui conhecer o jogo, já na versão MSX, em algum ponto entre o final de 1992 e o começo de 1993. Nessa época, depois de cinco anos tendo um Atari, ganhei um micro Expert da Gradiente (compatível com o padrão MSX) e é claro que eu estava louco para botar as mãos em qualquer coisa que tivesse algo a ver com as Tartarugas Ninja!

Na época, eu gostei muito do jogo. Claro, não era tão fantástico e frenético como o maravilhoso TMNT II – The Arcade Game do NES (que, em termos de Tartarugas Ninja, era basicamente o meu “sonho de consumo” na época). Ainda assim, era um game interessante. Os gráficos eram bacanas, tinha o Destruidor, tinha a April, tinha o Splinter, tinha o Bebop (embora irreconhecível, ilustrado por um sprite horroroso e disforme), tinha as Turtles nadando numa represa para desativar bombas submersas, tinha o “furgão” das tartarugas e por aí vai. Vale lembrar que o jogo (apesar de lançado no mesmo ano do primeiro filme das tartarugas) é uma adaptação do jogo lançado para o NES no ano anterior – sendo, portanto, baseado no desenho animado das Turtles e não no filme.

Uma vantagem que posso atestar sobre esta versão MSX/Spectrum, em relação ao TMNT do NES, é que o jogo era muito menos difícil e muito menos frustrante/irritante. No início, o jogo parecia bem inclemente. Mas, com um pouco de treino, era possível dominar a jogabilidade e chegar ao fim do game de forma razoavelmente tranquila. Uma coisa que me ajudou muito, na época, foi o mapa completo do jogo, publicado na edição nº 23 da saudosa revista nacional CPU MSX.

Numa matéria de quatro páginas, a revista apresentava um detonado completo, passo a passo, do jogo. Eu tinha essa revista na época e esse “detonado” foi o meu roteiro para entender melhor o game e chegar até o final. Depois que “virei” o jogo pela primeira vez, posteriormente repeti a proeza várias vezes. Embora com menos conteúdo do que o TMNT do NES, o TMHT do MSX/Spectrum era realmente menos inclemente, irritante e frustrante – e, justamente por isso, mais viciante e divertido.

Uma curiosidade: você deve ter notado que, na versão MSX/Spectrum, o título Teenage Mutant NINJA Turtles mudou, sem maiores explicações, para Teenage Mutant HERO Turtles. O que foi isso? Alguém cometeu algum erro de digitação? A explicação é simples. Isso não aconteceu apenas com esse jogo, mas sim com todos os produtos da franquia lançados nos mercados europeus naquela época. A maior parte das legislações europeias, visando proteger as crianças de produtos de entretenimento carregados de violência excessiva, proibia o uso de expressões como “ninja” (ou qualquer coisa que tivesse relação com violência ou assassinato) em brinquedos em geral. As mesmas restrições não existiam no mercado americano. É por isso que, nos EUA, o nome da franquia ostentava o título NINJA enquanto que, na Europa, as tartarugas (pelo menos no título) passaram a exibir HEROES no nome. Como as conversões do game para microcomputadores eram essencialmente voltadas para o público europeu, acabou prevalecendo a nomenclatura europeia no título. No entanto, o mesmo não aconteceu com a versão para o micro Commodore 64 (cujo maior mercado era os EUA). No C64, o nome do jogo permaneceu igual ao do NES: Teenage Mutant NINJA Turtles.

Ainda a título de curiosidade, na Espanha (que era um dos maiores mercados do MSX na Europa) o game foi lançado como TORTUGAS NINJA. O lançamento espanhol (oficial, diga-se de passagem) chama a atenção menos pela opção exótica de traduzir o nome do jogo e mais pelo fato de que a “censura” em torno da expressão “ninja” foi sumariamente ignorada (ainda que o software em si continuasse se apresentando como Teenage Mutant HERO Turtles). O jogo nesta versão vinha acompanhado de um manual muito legal, que incluía também os códigos antipirataria necessários para entrar no jogo. O manual encontra-se preservado em versão digital no Internet Archive, e você pode acessá-lo na íntegra no seguinte endereço: https://archive.org/details/TortugasNinjaES/mode/2up

Parece difícil de acreditar, mas lá se vão 30 anos desde o lançamento do filme original das Tartarugas Ninja (que, para mim, continua sendo o filme definitivo dos personagens). Também já se vão quase 30 anos do meu primeiro contato com o game do MSX, que me proporcionou muitas horas de diversão e que tem um lugar especial nas minhas memórias até hoje. Surrar o Destruidor e comer muita pizza são coisas que jamais deixarão de ser divertidas. Cowabunga!

2 pensamentos sobre “TEENAGE MUTANT HERO TURTLES (ZX Spectrum/MSX, 1990)

  1. Excelente texto. Também foi um sonho de consumo pra mim o game de NES. Nos anos 90 as Tartarugas foram um fenômeno! Bonita as cores do MSX… mas as tartarugas ficaram bem mais agressivas. 🙂 Censurar a palavra NInja foi tenso! Principalmente porque o termo ninja também foi febre nesta época! Tinha que ser a Europa mesmo. Valeu!

  2. O TMNT 2 do NES foi o primeiro jogo que tive (e joguei) na vida, a nostalgia é forte com ele, mas é legal saber dos outros jogos das Tartarugas lançados para outros aparelhos.
    Bom texto.

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