NEMESIS (MSX, 1986)

Antes da hegemonia absoluta do padrão IBM-PC a partir dos anos 90, diversos microcomputadores fizeram sucesso pelo mundo afora, conquistando legiões de fãs que manifestam sua devoção por estas antigas plataformas até os dias atuais. Zx Spectrum, Apple II, Amiga e Commodore 64 são alguns destes saudosos micros do passado, que fazem seus antigos usuários irem às lágrimas de saudades. Claro que tudo depende do país do qual se está falando. Para os britânicos, não há dúvida: o grande micro dos anos 80 foi o Spectrum. Para os americanos, não há dúvida: o melhor micro daquela década foi o Commodore 64. Mas para os japoneses e para os brasileiros, a certeza é outra: quando se fala em microcomputador dos anos 80, não tem pra ninguém, é MSX na cabeça!


Estrondoso sucesso no Japão, aqui no Brasil a idolatria pelo MSX chegou às raias do culto religioso. Toda essa devoção, em grande parte, se deve à maravilhosa biblioteca de jogos da plataforma, que se destacava por rodar games não apenas em disquetes e fitas K7 como também em cartuchos, contribuindo para que o MSX entrasse para a história como o mais videogame de todos os microcomputadores.


Muitos jogos de MSX eram “ports” de jogos de outras plataformas (principalmente do Spectrum), mas os games que mais orgulhavam os usuários do micro e que representavam o filé da plataforma eram os games feitos pela softhouse mais apaixonada e devota ao MSX que já existiu: a célebre KONAMI. Pelas mãos da Konami, o MSX foi agraciado com jogos que se tornaram lendários, como Knightmare, The Goonies, King’s Valley, Yie Ar Kung Fu, Metal Gear, Vampire Killer, Antarctic Adventure e outros.

Mas há uma série de games da Konami que provavelmente representa o ápice do fanatismo religioso pelo MSX. É uma série antológica, que os fiéis do MSX consideram patrimônio seu e de mais ninguém e que é indispensável para qualquer retrogamer que se aventure pelos dias gloriosos desse micro: NEMESIS.


Nemesis, na verdade, não surgiu no MSX e tampouco nasceu com esse nome. O game original, Gradius, foi lançado nos arcades pela Konami em 1985, e ganhou versões para diversas plataformas (Amstrad CPC, Commodore 64, PC Engine, Spectrum, Sharp X68000), sendo que as de maior sucesso foram as conversões para o NES (com o nome Gradius) e para o MSX (com o nome Nemesis). E mais: a versão do NES, tecnicamente, é sem dúvida superior a do MSX.


Ora, mas se o jogo não surgiu no MSX, não é exclusivo deste micro e se essa versão do jogo sequer é a melhor conversão para plataformas domésticas, então por que diabos o nome “Nemesis” se transformou quase num sinônimo de MSX? A resposta é simples: por causa das continuações.

Durante a época da terceira e da quarta geração de videogames, o Gradius original recebeu duas continuações nos arcades: Gradius II (1988) e Gradius III (1989). Um “spin-off” da série Gradius, chamado Salamander, foi lançado pela Konami em 1986 e o NES, que tinha apresentado uma bela adaptação do primeiro jogo da série, foi agraciado com uma ótima versão de Salamander (chamada Life Force, nome que Salamander ganhou nos arcades quando veio para os EUA). Mas o NES ficou chupando o dedo em relação aos outros jogos da série (embora Gradius II tenha chegado a ser lançado, apenas no Japão, para o equivalente nipônico do console, o Famicom). Já Gradius III ficou exclusivo dos arcades e do Super Nes, não sendo adaptado para nenhuma plataforma de 8-bits.


Bom, mas qual é o mérito do MSX nessa história toda? É o seguinte: depois de ganhar sua versão de Gradius (rebatizada Nemesis) e um ano antes do lançamento de Gradius II nos arcades, a Konami lançou para o micro uma sequência exclusiva da série Nemesis, inexistente nos arcades ou em qualquer outra plataforma: Nemesis 2 (conhecido como Gradius 2 no Japão, diferente do numeral romano do “outro” Gradius II). No ano seguinte, o MSX seria agraciado com mais um episódio inédito da saga, o game Nemesis 3 – The Eve of Destruction (conhecido como Gofer no Yabo Episode II no Japão).


Por conta disso, o MSX é até hoje a única plataforma que dispõe de toda a trilogia Nemesis (embora os três jogos possam ser jogados no Saturn e no Playstation através dos dois primeiros volumes da coletânea Konami Antiques MSX Collection, lançada para estes consoles em 1997 e 1998). Além disso, enquanto que a trama nunca teve muita importância na série Gradius, na série Nemesis do MSX os dois últimos episódios (principalmente o segundo) investiram bastante na história, o que só tornou ainda mais especiais essas exclusividades do MSX.

É por isso que em outras plataformas se fala muito em Gradius, enquanto que no MSX só se fala em Nemesis. O MSX, na realidade, jamais recebeu adaptações de Gradius II e Gradius III, apenas de Gradius I (que virou Nemesis) e de Salamander. Mas enquanto a série continuava como Gradius nos arcades, a Konami transformou Nemesis numa série especial do MSX, com dois episódios exclusivos.


Agora que a gente já entendeu essa confusão toda envolvendo esse múltiplos jogos de nomes semelhantes, vamos nos ater ao primeiro Nemesis do MSX (não se preocupe, falaremos dos outros jogos da série futuramente aqui no Cemetery Games). Para um MSXzista saudoso como eu é difícil dizer isso, mas a verdade é que o Nemesis do MSX tinha lá seus defeitos. O mais evidente deles era o “scroll” precário do jogo, que fazia a tela “andar” de forma levemente sobressaltada, sem aquela fluência do original do arcade e da versão do NES. Isso aumentava a dificuldade do jogo, tornando mais fácil que a nave controlada pelo jogador se chocasse com algum obstáculo que repentinamente surgisse pelo caminho. A própria nave Vic Viper, além disso, era menos detalhada do que no arcade e no NES.


Superados esses inconvenientes, o que nos resta são os motivos que tornaram o Nemesis do MSX uma lenda: dificuldade acentuada, gráficos incrivelmente coloridos e definidos para os padrões da época, fases interessantes, power ups destruidores e, talvez mais do que qualquer outra coisa, uma trilha sonora fantástica e inesquecível, que mais parece estar saindo de um game de um console de 16-bits. E, é claro, não podemos esquecer dos místicos e misteriosos moais do espaço, cuja existência é algo que dá margem para delírios imaginativos dos jogadores até hoje.

A história desse primeiro episódio da série é superficial, como era típico dos jogos do estilo. Pilotando a poderosa nave Vic Viper, o jogador precisa proteger o planeta Nemesis (ou Gradius, no original) da invasão alienígena dos agressores conhecidos como Bacterians. A dificuldade não é excessivamente elevada, principalmente considerando-se os padrões desse estilo de jogo. Mas não pense que derrotar os Bacterians será um passeio no parque. A partir da terceira fase, o jogo fica bastante desafiante. Já na última fase, os inimigos perdem a compostura e o jogo vira um “bullet hell” de arrancar os cabelos.

Se é verdade que o Nemesis do MSX não superava o Gradius do arcade e do NES, também é verdade que ele botava no chinelo as versões lançadas para outros micros da época, como Spectrum e Commodore 64. Se tem um jogo que atesta a superioridade do hardware do MSX sobre o Spectrum, certamente Nemesis é este jogo.

Embora esse primeiro game não tenha o mérito da exclusividade, foi o pontapé inicial para que a Konami elaborasse para o MSX uma trilogia exclusiva, que deixou todo mundo babando de inveja. Quem tinha um MSX nessa época era feliz, e sabia disso perfeitamente bem.

Uma história engraçada que lembro sobre Nemesis é a seguinte: quando ganhei meu MSX Expert no final de 1992, eu vinha de cinco anos de Atari, e portanto eu estava louco pra me livrar daqueles jogos monofásicos e jogar games típicos da 3ª geração de consoles, ou seja, jogos com história, começo, meio e fim. No dia em que ganhei meu MSX, um dos disquetes de games que vieram junto com o computador tinha “Nemesis” escrito nele. Perguntei pro meu pai como é que era o jogo, e ele disse que era um jogo de naves espaciais, “tipo aqueles que tu tem no Atari”. Aquilo colocou minhas expectativas lá embaixo, e pensei em nem conhecer o jogo, afinal de contas eu agora tinha um poderoso MSX. O que eu iria querer com games que pareciam de Atari? Bom, depois disso, quando fui colocar
Nemesis para carregar, quase caí pra trás. Era mesmo um jogo de nave, como tantos do Atari, mas com gráficos, sons e mecânica que faziam os jogos que eu estava acostumado parecerem coisas de séculos pretéritos. Enfim, Nemesis me permitiu visualizar com mais facilidade o abismo tecnológico que havia entre o Atari e o MSX, e só aumentou a minha felicidade diante daquele novo e maravilhoso brinquedinho.

O começo de cada fase é assim, no vazio do espaço. Os itens vermelhos são power-ups, não os perca de vista! Acumule-os até a barra inferior chegar no power-up que você deseja e então tecle “M” para  upgradear a sua nave.

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A primeira fase tem esse cenário colorido, com montanhas e vegetação.

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O primeiro “pepino” sério que você precisa enfrentar no game são esses vulcões malucos que entram em violenta erupção. Um bom jeito de sobreviver aqui é ficar no local mostrado na foto acima, atirando sem parar com o tiro frontal e com os mísseis.

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Em todo final de fase (exceto nos dois últimos níveis), você terá que enfrentar essa nave grandalhona aí. Mas não se assuste porque o cretino não é de nada!

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Na segunda fase o pau começa a comer. Não tem mais vegetaçãozinha, cenários verdinhos nem coisas do tipo. Repare na hostilidade latente das instalações de defesa inimigas, todas doidas para arrancar o seu couro!

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Ao invés de vulcões, agora a “ante-sala” do chefão é esse monte de bolas luminosas que tentam destruir a intrépida Vic Viper.

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Chegamos na terceira fase, e aqui a marca registrada são os misteriosos, enigmáticos, incompreensíveis, místicos, neo-zen-energéticos, supernutritivos, nova-era e apocalípticos MOAIS espaciais, diretamente da Ilha da Páscoa para os gélidos confins do espaço sideral. E olha isso: eles cospem rosquinhas de glacê na sua nave!

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A quantidade de tiros que sai da boca desses rostos de pedra miseráveis é uma coisa do outro mundo! Essa é a primeira fase realmente desafiante do game. Ah, reparou nas duas luzes amarelas que me seguem? São “clones” da Vic Viper, que disparam junto toda vez que a nave atira. Use a opção “option” para ativar esses power-ups.

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Antes de encarar aquele mesmo chefão de sempre pela terceira vez, você terá que sobreviver aos ataques dessas esferas metálicas.

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Faltou criatividade na quarta fase: o cenário é o mesmo da primeira fase, só que de cabeça pra baixo. Que conveniente, né Konami?!?

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Sinta a sua espinha gelar nessa sinistra quinta fase, na qual a Vic Viper sobrevoa o que aparenta ser um planeta de ossos, e enfrenta essas  mórbidas  e gigantescas criaturas mortas-vivas.

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Repare que surge até um Exu Caveira apavorando nessa fase macumbenta do terror.

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Bumerangues malucos tentarão destruir a Vic Viper antes do chefão. Cuidado!

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Como o chefão da fase é aquele mesmo bunda-mole de sempre, resolveram aumentar o número de porcarias que atacam sua nave antes do fim da fase. Depois dos bumerangues vermelhos, surgem essas estruturas metálicas que tentam colidir com a Vic Viper.

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Estamos agora na sexta fase, que é infernal. Tudo graças a estes bizarros “polvos” espaciais, que disparam quantidades absurdas de tiros contra a nossa heróica espaçonave.

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Depois de sofrer feito bicho nas garras (ou melhor, nos tentáculos) dos polvos espaciais, temos agora o “prazer” de enfrentar esse chefão gordinho pela última vez.

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Chegamos à sétima fase! Não é bolinho mas, comparada com as anteriores, até que dá pra encarar numa boa. Aproveite para dar uma respirada antes do inferno absoluto que é a última fase.

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Final da sétima fase e … surpresa! Um chefão novo! Só falta descobrir que diabos é essa coisa! Parece um bicho saído das profundezas do mar. De qualquer forma, deixe a biologia de lado e detone o safado rapidamente, para ele não ter chances de incomodar.

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Chegamos na última fase, e aqui os inimigos perdem todo e qualquer senso de decência. A dificuldade do jogo, que se mantinha dentro de parâmetros aceitáveis, subitamente se converte em um bullet hell sangrento e desesperador.

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O covil particular do misterioso chefão do jogo é protegido por esses tentáculos miseráveis, que disparam em você uma quantidade de tiros superior a todos os tiros dados em todos os combates da Segunda Guerra Mundial. A chance de passar por aqui sem ser desintegrado é de aproximadamente uma em 1.208.720.530.122.106.980 (a margem de erro é de 2 pontos percentuais, pra cima ou para baixo).

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Depois de tanto sofrimento e de toda esta longa, gloriosa e árdua batalha, somos apresentados ao chefão mais fácil de toda a história dos videogames. Basta destruir rapidamente os seis suportes vermelhos do grande cérebro alienígena e pronto, o inimigo final morre sem conseguir dar um “ai”. Essa foi barbadinha, hein? Tem cérebro por aí que não é de nada! Já pensou se a Mother Brain do Metroid fosse assim tão fácil?

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O terrível líder dos bacterians é desintegrado, a fortaleza bélica dos inimigos aparece explodindo ao fundo e de lá,  em direção à tela, voa a intrépida Vic Viper. A galáxia está a salvo, pelo menos até Nemesis 2. Até a próxima, amigos retrogamers!

THE END

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8 pensamentos sobre “NEMESIS (MSX, 1986)

  1. Sensacional!

    Realmente, Nemesis é referencial no MSX.

    Eu também pulei do Atari para o MSX. Mas meu primeiro jogo foi outro clássico da Konami: The Goonies (na realidade, o cartucho da “versão nacional” da Epcom, chamada O Tesouro Perdido).

    MSX e Konami, dupla imbatível.

  2. Bah, pular do Atari para o MSX era como ir para outra dimensão. Os jogos eram incomparavelmente superiores. Na média, os games de MSX 1 eram tecnicamente inferiores à média dos games de NES e Master System, mas os melhores games do MSX eram invejáveis. Futuramente, quero debulhar Nemesis II e III de cabo a rabo aqui no blog!

  3. É impossível ter MSX e não conhecer pelo menos um dos nemesis.

    Os Nemesis eram realmente maravilhosos, principalmente o 3

    Vale lembrar as continuações “espirituais”:
    1989 – Space Manbow (MSX2)
    1991 – Xexex (arcade)

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