SNOOPY AND THE RED BARON (ATARI 2600, 1983)

Durante a época em que tive um Atari (mais precisamente, um clone nacional – o Supergame da CCE) entre 1987 e 1992, me acostumei com jogos com gráficos “quadradões”. Haviam algumas honrosas exceções aqui e ali, mas no geral a biblioteca do clássico console de segunda geração da Atari era constituída de títulos com gráficos em baixa resolução e pouca sofisticação visual. Personagens e cenários sem grande definição eram habituais, e era gritante o contraste com os gráficos desenhados e nítidos de consoles mais modernos, como o Nintendo 8-bits (NES) e o Master System.

Então, em algum ponto do final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, conheci este game do Snoopy. Por si só, já era uma alegria ver um dos meus personagens favoritos em um jogo de Atari. Mas não ficava só por aí. Com um visual que parecia saído diretamente das páginas dos quadrinhos ou do desenho animado, à primeira vista Snoopy and the Red Baron parecia mais um game dos primeiros dias do NES do que um jogo de Atari. Os gráficos eram nítidos, detalhados e ricos em cores. A qualidade era impressionante para os padrões do console, apresentando um Snoopy perfeitamente caracterizado enquanto encarnava um dos delírios imaginativos mais legais do personagem – o “Às da Primeira Guerra” que, usando a sua casinha de cachorro como avião, protagonizava épicos combates aéreos contra o seu arqui-inimigo, o temível Barão Vermelho.

O divertido conceito do jogo e a apresentação visual caprichada vinham acompanhados, ainda, de uma trilha sonora muito acima da média dos padrões do Atari. A excelente música da abertura do jogo (que reproduzia o tema do desenho animado) era seguida de um breve trecho da clássica “Cavalgada das Valquírias” de Wagner. Durante o jogo em si, bons efeitos sonoros de tiros, motores de aviões e explosões complementavam a ação vista na tela. Tudo isso contribuía para colocar Snoopy and the Red Baron naquela categoria de games mais bonitos do Atari, ao lado de títulos como H.E.R.O, Pitfall, Popeye, Keystone Kapers e outros. O nível de atenção ao detalhe visual era tanto que, quando Snoopy é atingido pelo inimigo, é possível identificar sucessivos furos de bala na casinha voadora do personagem.

A ação do jogo é bastante simples. A missão de Snoopy consiste em derrubar o avião do Barão Vermelho quatro vezes consecutivas, encerrando a “fase” e levando o jogador para uma tela de atualização do score obtido e dos itens coletados durante a fase. Ao longo de todo o jogo, o Barão Vermelho atira de seu avião diferentes guloseimas que podem ser apanhadas por Snoopy, incluindo sorvetes, pizzas, hamburguers, pequenos ossos e até copos de cerveja (hey, ninguém é de ferro, certo?). Após este breve descanso, o jogador é novamente colocado em uma arena de combate áreo com o Barão Vermelho, tendo que derrubar mais quatro aviões e assim sucessivamente.

Apesar da sua apresentação audiovisual impressionante para os modestos padrões técnicos do Atari, o “calcanhar de Aquiles” de Snoopy and the Red Baron era a mecânica extremamente repetitiva, que tornava o jogo cansativo e tedioso depois de pouco tempo. Ao contrário de games como Frogger ou H.E.R.O, que apresentavam fases cada vez mais desafiantes e progressivamente introduziam novos obstáculos e desafios, neste jogo as sucessivas fases não trazem surpresas nem novidades. Tão logo o jogador passa a dominar a mecânica do jogo, torna-se fácil avançar ao longo das missões idênticas por dezenas de vezes, tornando a experiência cansativa e muito menos interessante do que poderia ser.

A ampla variedade de itens coletáveis não tem outra utilidade senão fornecer uma vida extra ao jogador, o que só acontece depois de 24 itens apanhados. É um esforço prolongado excessivo para uma recompensa tão modesta, ainda mais em um jogo relativamente fácil no qual o número de vidas disponíveis está longe de ser um problema. O resultado acaba sendo um jogo com partidas bastante longas mas invariavelmente monótonas. Depois de vinte ou trinta minutos passando por dezenas de fases idênticas, é mais provável que o jogador seja vencido pela desatenção ou cansaço resultantes de puro tédio do que pelos desafios do jogo em si.

Essa ausência de uma mecânica mais sofisticada e diversificada provavelmente contribuiu para Snoopy and the Red Baron ter se tornado um jogo relativamente esquecido dentro da biblioteca de títulos do Atari. Considerando o seu divertidíssimo conceito e seus gráficos excelentes, seria razoável imaginar que este jogo poderia ter marcado época e se tornando uma referência memorável para os jogadores de Atari dos anos 1980 e para as gerações de retrogamers que se sucederam desde então. Infelizmente, ao mesmo tempo em que é uma impressionante demonstração técnica das capacidades do hardware do console, Snoopy and the Red Baron deixa a desejar enquanto jogo. Por não conseguir se manter divertido por mais do que alguns minutos, a experiência acabava sendo rapidamente esquecível.

Apesar de seus defeitos, quem jogou este game naquela época dificilmente poderá evitar o apelo da memória afetiva. Era legal demais ver Snoopy perfeitamente ilustrado em um game de Atari, voando pelo céu com sua casinha e trocando tiros com o Barão Vermelho. A forma brilhante como o conceito foi transposto para um jogo de Atari, com grande qualidade audiovisual, é motivo suficiente para que o jogo ainda mereça uma conferida casual, mesmo depois de passados quase quarenta anos desde o seu lançamento. Snoopy and the Red Baron é um daqueles títulos que comprovam que, nas mãos de programadores habilidosos, o bom e velho Atari era capaz de coisas impressionantes e que iam muito além do que a própria fabricante do console imaginava possível quando lançou o aparelho no mercado em 1978.

500.000 visitantes! Feliz Ano Novo!

O Cemetery Games encerra o ano atingindo a marca acumulada de 500.000 visualizações. É isso aí mesmo: MEIO MILHÃO de visualizações! É uma alegria ver que tantas pessoas continuam compartilhando do nosso eterno amor por videogames clássicos.

Quando o Cemetery Games foi criado em março de 2009, nunca poderíamos imaginar que, uma década depois, o blog estaria não apenas vivo como recebendo uma média de mais de 40.000 visualizações anuais – ainda mais diante do fato de que o Cemetery Games jamais contou com qualquer tipo de divulgação ou publicidade, sendo desde sempre um projeto underground, levado adiante como hobby nas horas vagas.

Para alguns, os fanáticos por retrogaming são loucos. Pode ser. Mas é muito mais legal ser maluco quando a gente pode compartilhar nossas experiências com tantos outros doidos por aí. 😀

O Cemetery Games deseja a todos um Feliz Ano Novo, com um agradecimento especial para todos que contribuem para preservar a memória dos games e consoles que marcaram época e fizeram história.

FELIZ 2021!

AS ÚLTIMAS NOVIDADES GAMERS DO NATAL … DE 1997/1998!

Ho, ho, ho! Feliz Natal, meus caros retrogamers! Aqui quem fala é o Fantasma do Natal Passado. Estou de volta! Depois da nossa pequena viagem no tempo para os natais de 1981 e 1982, agora é hora de conferir o que estava rolando na cena gamer natalina de 1997 e 1998. Apertem os cintos e venham comigo!

O gênero “games de corrida” estava prestes a mudar para sempre em dezembro de 1997 por conta do lançamento do hoje lendário Gran Turismo para o Playstation. Aclamado por público e crítica, o jogo se tornou simplesmente o título mais vendido do PsOne em todos os tempos, com 10.8 milhões de unidades comercializadas pelo mundo afora. Com uma combinação animal de visual, música e jogabilidade, Gran Turismo deu origem a uma franquia que continua firme e forte até os dias atuais.

O lançamento de Gran Turismo, por si só, já seria mais do que suficiente para colocar o Natal de 1997 na história. Mas tem mais: o mesmo mês de dezembro daquele ano testemunhou a chegada de uma das continuações mais aguardadas dos anos 90 – Quake 2!

O primeiro Quake havia abalado o mundo em 1996 e revolucionado para sempre o estilo FPS (first-person shooters). Com seus ambientes e personagens construídos inteiramente em 3D, Quake tornou imediatamente obsoletos todos os jogos do estilo que estavam no mercado até então e tomou de assalto a coroa que pertencia ao célebre Duke Nukem 3D. Depois de um jogo arrasa-quarteirão como Quake, era natural que o hype em torno de uma continuação estivesse em níveis estratosféricos. Quake 2 inovou com gráficos ainda melhores, embora sua temática e ambientação tenham ido numa direção mais ficção científica/militar/alienígena, bem diferente do terror lovecraftiano que tão bem caracterizava o jogo original.

Assim como aconteceu com o primeiro jogo, Quake 2 foi adaptado posteriormente dos PCs para o Nintendo 64. O curioso foi a “troca de papeis” entre o Sega Saturn e o Playstation: o Saturn ganhou uma versão do Quake original, mas ficou sem Quake 2. Já o Playstation nunca ganhou uma adaptação do primeiro jogo, mas teve uma versão de Quake 2 lançada posteriormente. O Quake 2 do Playstation pegou muita gente de surpresa e derrubou queixos no chão por sua qualidade visual, sendo lembrado até hoje como uma das mais destacadas proezas técnicas do console.

As paradas da época eram dominadas por games como Formula 1 ’97 (Playstation), Nuclear Strike (Playstation), Sega Worldwide Soccer ’98 (Saturn) e Resident Evil (Saturn). No PC, a expansão The Aftermath do clássico Command and Conquer – Red Alert despontava no topo das paradas, acompanhada de títulos como Total Annihilation e Hexen 2. Nos arcades, a Sega estava lançado Sega Bass Fishing, um jogo de … pesca! Esse tipo de coisa não é a minha praia (com o perdão pelo trocadilho!).

Saltamos para o Natal de 1998 e algumas coisas interessantes estavam surgindo também no ano seguinte. Ok, não teve nenhum lançamento com a importância história de Gran Turismo, mas não dá para reclamar de um dezembro que teve o lançamento de The House of the Dead 2 nos arcades e de Star Wars: Rogue Squadron no Nintendo 64. Rogue Squadron é lembrado até hoje com um dos melhores games da franquia Star Wars em todos os tempos – e com razão!

Achou pouco? Pois Sonic Adventure, o jogo que consagrou a transição do ouriço da Sega do visual 2D para o 3D, chegou no Dreamcast em dezembro de 1998. Pode não ser um jogo perfeito, pode não ser um clássico da estatura de Super Mario 64, mas é um game fantástico para os padrões da época e que estabeleceu os padrões das aparições posteriores do Sonic em games das próximas gerações. Falando no Mario (aquele que te deu Feliz Natal atrás do armário), dezembro de 1998 também contou com o lançamento de Mario Party para Nintendo 64. O jogo não faz muito o meu tipo, mas foi o pontapé inicial em uma franquia bem sucedida.

Em um toque de nostalgia retrô, em dezembro de 1998 a Activision lançou para o Playstation uma versão repaginada de um de seus clássicos mais antigos, o pioneiro Asteroids – um hit dos arcades lá dos idos do Atari 2600. A nova versão não era nada de parar o trânsito, mas tinha o seu charme.

Enquanto isso, no Natal de 1998, as paradas eram dominadas por games como Tekken 3, Medievil, Colin McRae Rally, Victory Boxing 2 e International Superstar Soccer Pro 98 (todos do Playstation), bem como por F-1 World Grand Prix e 1080 Snowboarding (do Nintendo 64). Tudo isso rolava, é claro, ao som de Cher cantando Believe a plenos pulmões nas rádios.

Era isso, meus amigos! Obrigado por acompanharem essa pequena jornada rumo aos natais passados. Feliz Natal para todos vocês!

AS ÚLTIMAS NOVIDADES GAMERS DO NATAL … DE 1981/1982!

E aí, pessoal! Como estão? Eu sou o Fantasma do Natal Passado e resolvi dar uma pequena contribuição aqui para o Cemetery Games!

O Natal de 2020 se aproxima. Apesar de todo o caos instaurado pela pandemia, foi um ano marcado por vários games legais. Pena que este final de ano provavelmente será lembrado pelo fiasco do problemático lançamento de Cyberpunk 2077, que saiu completamente bugado nas versões para consoles e cujo futuro decente no PS4/Xbox One ainda é muito incerto.

Mas enfim, chega de falar de 2020. O que estava rolando nos natais de antigamente? Imbuído do melhor espírito natalino retrogamer, resolvi pesquisar o que a cena gamer reservava para o público lá nos idos de antigamente.

A nossa viagem no tempo começa em dezembro de 1981 e … bem, pra ser sincero, não tinha muita coisa excitante acontecendo em termos de videogames naquela época. Boa parte dos melhores games do Atari 2600 (o console dominante da época) ainda não haviam sido lançados e os computadores domésticos ainda estavam em um processo gradativo de popularização. No Apple II, o jogo no topo das paradas era Castle Wolfenstein, o “avô” espiritual da franquia iniciada com o clássico Wolfenstein 3D de 1992.

O clássico micro britânico ZX Spectrum ainda não havia sido introduzido no mercado, mas o seu antecessor ZX 81 despontava nas paradas com QS Defender, QS Asteroids, Star Trek, The Damsel and the Beast e Volcanic Dungeon.

Nos cinemas, o hoje lendário Mad Max 2 marcava a sua estreia mundial. Nas paradas musicais, a Human League emplacava Don’t You Want Me.

Seguimos para 1982 e, aqui, a coisa fica mais interessante. Para começo de conversa, em dezembro de 1982 tivemos o lançamento do clássico River Raid, indiscutivelmente um dos melhores games do Atari 2600 em todos os tempos. A gente já analisou River Raid a fundo aqui no Cemetery Games, confira: https://cemeterygames.com/2009/04/09/river-raid-atari-2600-1982/

Dezembro de 1982 também contou com o lançamento nos arcades da primeira continuação do clássico Donkey Kong: Donkey Kong Jr. Se no game original o jogador enfrentava Donkey Kong, dessa vez o personagem principal era o filho do DK, buscando resgatar seu pai das garras do vilão que o capturou … Mario! É, AQUELE Mario que você está pensando mesmo. Até hoje, Donkey Kong Jr tem a distinção de ser o primeiro e único jogo do planeta no qual Mario é o vilão.

Em dezembro de 1982, o ZX Spectrum já estava no mercado – mas ainda estava longe de ser agraciado com os grandes games que todos nós amamos e lembramos com saudades. No top das paradas do ZX Spectrum, estavam alguns dos games das primeiras fornadas da plataforma, como Escape, Mazeman, Spectral Invaders, Meteor Storm e Niteflight. Nada de memorável. Mazeman, que era essencialmente um clone genérico do clássico Pac-Man, também era o game mais vendido do ZX 81. No computador VIC-20 o jogo que estava em primeiro lugar em vendas era o adventure texto Adventureland.

Bom, era isso. Não aconteceu mais nada de importante no mundo dos games em dezembro de 1982 e …

Ok, isso não é verdade.

Tem mais uma “coisinha” que aconteceu. Eu não queria entrar no assunto porque até hoje se trata de um dos maiores traumas da indústria dos videogames em todos os tempos, mas precisamos ter a coragem de lidar com o elefante na sala. No caso, um elefante que veio de outro planeta.

O Natal de 1982 é marcado pelo lançamento do lendário, notório e infame E.T – The Extra-Terrestrial para o Atari 2600.

Programado às pressas (com a imposição absurda de um prazo insano de apenas cinco semanas) por Howard Scott Warshaw (que também foi o responsável por Yar’s Revenge e Raiders of the Lost Ark, ambos do Atari 2600), o jogo foi um fracasso monumental odiado pelo público e pela crítica. Considerado por muito tempo como sendo simplesmente o pior game de todos os tempos, até hoje E.T é considerado como um dos fatores que levou o mercado ao histórico “crash” de 1983 – um evento que quase sepultou a indústria de videogames para todo o sempre.

O jogo era mesmo assim tão ruim? Depende. O conceito do jogo era interessante, os gráficos bem trabalhados e a tela de abertura era uma das melhores já vistas no Atari 2600 (talvez A melhor). O problema é que o jogo, feito à pressas, foi lançado no mercado de forma prematura, com sérios problemas de jogabilidade e polimento. Como o caso de Cyberpunk 2077 bem ilustra, esta continua sendo uma lição que ainda não foi devidamente aprendida pela indústria, mesmo depois de quase quarenta anos! Com alguns meses a mais de revisão, acabamento e “debugs”, o E.T do Atari poderia ter sido um grande game. Infelizmente, não foi o que aconteceu e o produto lançado nas lojas era aborrecido, frustrante e irritante – sobretudo para um jogo voltado principalmente para o público infantil.

Comercialmente, por conta do apelo do sucesso do filme, o jogo vendeu muito bem. Com 1,5 milhão de cópias vendidas, ele se tornou o quinto jogo de Atari 2600 mais vendido da história. Soa impressionante, não? O problema é que a Atari (imaginando que o jogo quebraria todos os recordes) produziu uma quantidade absurda e excessiva de cartuchos e inundou o mercado com eles. Com a terrível recepção da crítica e do público, a Atari ficou com 3 milhões de cartuchos encalhados nas mãos – e isso depois de ter gasto uma fortuna pelos direitos de uso do nome e imagem do filme e de seus personagens.

O lançamento de Cyberpunk 2077 pode ter sido um fiasco histórico, mas realmente nada pode se comparar ao desastre mítico do E.T do Atari, que permanece sendo o desastre do Titanic do mundo dos videogames.

Seria isso por enquanto, meus queridos amigos retrogamers. O Espírito do Natal Passado vai descansar um pouco, mas a nossa viagem no tempo continuará nos próximos dias, quando iremos ver o que rolou nos natais de 1997 e 1998. Não percam!