1991 – OS 30 ANOS DE UM MARCO NA HISTÓRIA DOS VIDEOGAMES

Chegou a hora de celebrarmos os 30 anos de 1991 – um ano inesquecível para a indústria dos videogames! Ao longo de todo o restante de 2021, falaremos aqui no Cemetery Games sobre muita coisa legal que abalou o mundo dos videogames naquele ano.

E não foi pouca coisa: teve lançamento do Super Nintendo e do Game Gear nos mercados ocidentais, teve estreia dos Simpsons nos videogames, o lançamento do clássico absoluto Super Mario World no ocidente, o nascimento do icônico Sonic the Hedgehog, o surgimento do fenômeno Street Fighter II e uma porrada de lançamentos que hoje são lembrados como verdadeiras lendas, como Quackshot, Streets of Rage, Turtles in Time, Super Ghouls ‘n’ Ghosts, Out of This World, Super Castlevania IV e muitos outros.

E qual será o primeiro game que homenagearemos no “Projeto 1991” aqui do Cemetery Games? Você vai descobrir ainda hoje. Fique ligado!

CYBER SHADOW (PC, Xbox One, Ps4/Ps5, Switch – 2021)

Para os fãs de retrogaming, Cyber Shadow é uma das grandes novidades deste recém iniciado ano de 2021. Lançado no último dia 26 de janeiro, o jogo – desenvolvido pela Mechanical Head Studios e distribuído pela Yacht Club Games (famosa pelo hit Shovel Knight, de 2016) – tem todos os ingredientes necessários para cair no agrado dos saudosistas daqueles bons e velhos games de ação/aventura do Nintendo 8-bits (NES), que ostentavam uma dificuldade de ranger os dentes.

A trama de Cyber Shadow se passa num sombrio futuro pós-apocalíptico na cidade de Mekacity, na qual os avanços tecnológicos levaram a um apocalipse perpetrado por formas de vida sintéticas.

O jogador encarna Shadow, um ninja cyborg que é reativado com a missão de resgatar os membros do seu clã agora extinto e de destruir as forças malévolas que subjugaram a humanidade. Relativamente fragilizado no começo da aventura, o protagonista vai adquirindo, ao longo da sua jornada, um arsenal cada vez mais diversificado de poderes e habilidades especiais, que serão extremamente necessárias para atravessar os desafios dos onze capítulos do jogo.

Cyber Shadow é uma espécie de “carta de amor” à clássica trilogia Ninja Gaiden do NES, mas com forte influência de outros games célebres do console, em especial o celebrado Batman lançado em 1989 pela Sunsoft. Este novo lançamento emula de forma competente não apenas a estética mas também o “feeling” daqueles antigos clássicos, especialmente no que diz respeito à dificuldade intensa e às armadilhas que espreitam por todos os lados para matar o jogador sem dó nem piedade em um instante.

Ainda assim, essa emulação da mecânica inclemente dos antigos games de 8-bits é saudavelmente acompanhada de discretos recursos modernos visando equilibrar dificuldade com acessibilidade, como a presença de checkpoints em diferentes pontos de cada uma das 11 (longas) fases do jogo. Dito de outra forma: Cyber Shadow até parece, num primeiro momento, um osso duro de roer tão impiedoso quanto Ninja Gaiden ou o Batman de 1989 – mas, na prática, não é (o que não muda o fato de que você vai ter que penar bastante para chegar no fim do jogo). Em termos práticos, podemos dizer que Cyber Shadow é mais fácil (ou talvez seja melhor dizer menos insanamente difícil) do que os games de NES nos quais se inspira, mas bem mais longo em termos de conteúdo. Por mais ninja que o jogador seja, serão necessárias pelo menos umas quatro horas de jogo contínuo para atravessar todos os níveis do começo ao fim.

Comecei a jogar Cyber Shadow há algumas semanas e, por enquanto, estou na fase 4. Não foi fácil chegar até aqui e ainda tenho um longo caminho até “zerar” o game. Mas a empreitada vale a pena e é diversão garantida, especialmente para os fãs de retrogaming e para os saudosistas da trilogia Ninja Gaiden do NES.

Cyber Shadow está disponível para Windows, Linux, macOS e para os consoles Switch, PlayStation 4, PlayStation 5 e Xbox One. Neste momento, a versão para Windows está custando R$ 37,99 no Steam. Para os proprietários do Xbox One (plataforma na qual estou jogando o game), uma boa notícia: Cyber Shadow está sendo disponibilizado de graça para os assinantes do serviço Game Pass. Não perca!

SNOOPY AND THE RED BARON (ATARI 2600, 1983)

Durante a época em que tive um Atari (mais precisamente, um clone nacional – o Supergame da CCE) entre 1987 e 1992, me acostumei com jogos com gráficos “quadradões”. Haviam algumas honrosas exceções aqui e ali, mas no geral a biblioteca do clássico console de segunda geração da Atari era constituída de títulos com gráficos em baixa resolução e pouca sofisticação visual. Personagens e cenários sem grande definição eram habituais, e era gritante o contraste com os gráficos desenhados e nítidos de consoles mais modernos, como o Nintendo 8-bits (NES) e o Master System.

Então, em algum ponto do final dos anos 1980 e começo dos anos 1990, conheci este game do Snoopy. Por si só, já era uma alegria ver um dos meus personagens favoritos em um jogo de Atari. Mas não ficava só por aí. Com um visual que parecia saído diretamente das páginas dos quadrinhos ou do desenho animado, à primeira vista Snoopy and the Red Baron parecia mais um game dos primeiros dias do NES do que um jogo de Atari. Os gráficos eram nítidos, detalhados e ricos em cores. A qualidade era impressionante para os padrões do console, apresentando um Snoopy perfeitamente caracterizado enquanto encarnava um dos delírios imaginativos mais legais do personagem – o “Às da Primeira Guerra” que, usando a sua casinha de cachorro como avião, protagonizava épicos combates aéreos contra o seu arqui-inimigo, o temível Barão Vermelho.

O divertido conceito do jogo e a apresentação visual caprichada vinham acompanhados, ainda, de uma trilha sonora muito acima da média dos padrões do Atari. A excelente música da abertura do jogo (que reproduzia o tema do desenho animado) era seguida de um breve trecho da clássica “Cavalgada das Valquírias” de Wagner. Durante o jogo em si, bons efeitos sonoros de tiros, motores de aviões e explosões complementavam a ação vista na tela. Tudo isso contribuía para colocar Snoopy and the Red Baron naquela categoria de games mais bonitos do Atari, ao lado de títulos como H.E.R.O, Pitfall, Popeye, Keystone Kapers e outros. O nível de atenção ao detalhe visual era tanto que, quando Snoopy é atingido pelo inimigo, é possível identificar sucessivos furos de bala na casinha voadora do personagem.

A ação do jogo é bastante simples. A missão de Snoopy consiste em derrubar o avião do Barão Vermelho quatro vezes consecutivas, encerrando a “fase” e levando o jogador para uma tela de atualização do score obtido e dos itens coletados durante a fase. Ao longo de todo o jogo, o Barão Vermelho atira de seu avião diferentes guloseimas que podem ser apanhadas por Snoopy, incluindo sorvetes, pizzas, hamburguers, pequenos ossos e até copos de cerveja (hey, ninguém é de ferro, certo?). Após este breve descanso, o jogador é novamente colocado em uma arena de combate áreo com o Barão Vermelho, tendo que derrubar mais quatro aviões e assim sucessivamente.

Apesar da sua apresentação audiovisual impressionante para os modestos padrões técnicos do Atari, o “calcanhar de Aquiles” de Snoopy and the Red Baron era a mecânica extremamente repetitiva, que tornava o jogo cansativo e tedioso depois de pouco tempo. Ao contrário de games como Frogger ou H.E.R.O, que apresentavam fases cada vez mais desafiantes e progressivamente introduziam novos obstáculos e desafios, neste jogo as sucessivas fases não trazem surpresas nem novidades. Tão logo o jogador passa a dominar a mecânica do jogo, torna-se fácil avançar ao longo das missões idênticas por dezenas de vezes, tornando a experiência cansativa e muito menos interessante do que poderia ser.

A ampla variedade de itens coletáveis não tem outra utilidade senão fornecer uma vida extra ao jogador, o que só acontece depois de 24 itens apanhados. É um esforço prolongado excessivo para uma recompensa tão modesta, ainda mais em um jogo relativamente fácil no qual o número de vidas disponíveis está longe de ser um problema. O resultado acaba sendo um jogo com partidas bastante longas mas invariavelmente monótonas. Depois de vinte ou trinta minutos passando por dezenas de fases idênticas, é mais provável que o jogador seja vencido pela desatenção ou cansaço resultantes de puro tédio do que pelos desafios do jogo em si.

Essa ausência de uma mecânica mais sofisticada e diversificada provavelmente contribuiu para Snoopy and the Red Baron ter se tornado um jogo relativamente esquecido dentro da biblioteca de títulos do Atari. Considerando o seu divertidíssimo conceito e seus gráficos excelentes, seria razoável imaginar que este jogo poderia ter marcado época e se tornando uma referência memorável para os jogadores de Atari dos anos 1980 e para as gerações de retrogamers que se sucederam desde então. Infelizmente, ao mesmo tempo em que é uma impressionante demonstração técnica das capacidades do hardware do console, Snoopy and the Red Baron deixa a desejar enquanto jogo. Por não conseguir se manter divertido por mais do que alguns minutos, a experiência acabava sendo rapidamente esquecível.

Apesar de seus defeitos, quem jogou este game naquela época dificilmente poderá evitar o apelo da memória afetiva. Era legal demais ver Snoopy perfeitamente ilustrado em um game de Atari, voando pelo céu com sua casinha e trocando tiros com o Barão Vermelho. A forma brilhante como o conceito foi transposto para um jogo de Atari, com grande qualidade audiovisual, é motivo suficiente para que o jogo ainda mereça uma conferida casual, mesmo depois de passados quase quarenta anos desde o seu lançamento. Snoopy and the Red Baron é um daqueles títulos que comprovam que, nas mãos de programadores habilidosos, o bom e velho Atari era capaz de coisas impressionantes e que iam muito além do que a própria fabricante do console imaginava possível quando lançou o aparelho no mercado em 1978.