OUT RUN – Parte II: as versões para consoles e computadores

No final de janeiro, fizemos um retrospecto sobre a história, a criação e o lançamento do arcade OUT RUN, até hoje um dos maiores clássicos da Sega e um dos games de corrida mais revolucionários dos anos 80.

Agora, conforme prometido, é hora de analisarmos como Out Run fez sua transição para os videogames e microcomputadores daquela época, para alegria – ou profunda decepção – daqueles que eram proprietários dessas plataformas domésticas. Vamos ver o que nos aguarda!

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MASTER SYSTEM: a versão de Out Run para o Master System foi a primeira adaptação doméstica do arcade e, pelo menos aqui no Brasil, era de longe a versão mais conhecida e difundida do jogo – até mais do que o próprio arcade. Entre o final dos anos 80 e começo dos anos 90, Out Run era praticamente visto como “um game do Master System”. Isso adiciona uma carga sentimental a esta versão (a primeira vez que joguei Out Run foi precisamente no Master System, um momento inesquecível da minha infância), o que torna difícil falar mal dela, apesar de seus inegáveis defeitos. Mas a verdade é que a versão do Master é imensamente inferior ao original, com visual econômico e a Ferrari do jogador representada por um sprite bem menor do que no arcade. As músicas são as mesmas do original, mas soam muito inferiores. De qualquer forma, para uma versão doméstica, o resultado era muito bom, ainda mais levando em consideração que essa adaptação foi lançada na mesma época que o arcade original. Para você ter uma ideia, naqueles tempos eu jogava Enduro no Atari e achava a oitava maravilha do mundo!

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ZX SPECTRUM: eu sou um fã incondicional do Spectrum desde criança, mas não tem como gostar da versão de Out Run do clássico microcomputador britânico. A sensação de velocidade é inexistente e o visual monocromático é horrendo. Sabe tudo aquilo que qualquer pessoa normal associa com Out Run – sol, mar, praia, cenários bucólicos, velocidade e sensação de liberdade? Pois é, tudo isso DESAPARECEU nessa versão, que mais parece um péssimo jogo de corrida genérico qualquer. As limitações gráficas assassinaram o conceito e a ambientação do jogo, e basicamente as músicas representam a única coisa que sobrou para nos lembrarmos de que estamos jogando uma conversão de Out Run. Por mais que você seja um retrogamer dedicado e corajoso, passe longe dessa versão!
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COMMODORE 64: essa versão tem jogabilidade rápida e surpreendentemente boa, músicas muito bem executadas e bons gráficos. Poderia ter entrado para a história como uma conversão milagrosa de Out Run. Mas não, é CLARO que não, alguém TINHA que estragar tudo. Algum programador insano (que certamente hoje deve estar internado num hospício) olhou para os cenários do game original – o mar, a praia, a grama – e pensou: “hmmm, toda essa vida e sensação de liberdade não é legal! Sabe o que está faltando aqui? Mais asfalto!!!“. Sim, não só a estrada, mas TODA A SUPERFÍCIE dos cenários possui a mesma textura e a mesma cor cinza-listrado. É INACREDITÁVEL! É como se você fosse para a praia e descobrisse que alguma megacorporção maligna aterrou toda a areia e o mar com CIMENTO! Desnecessário dizer que, com isso, o visual do jogo foi simplesmente ARRUINADO. Correr num mundo cinza todo feito de concreto é a coisa mais distante do espírito de Out Run que eu posso imaginar. Um lamentável estrago nessa que poderia ter sido uma magnífica adaptação de Out Run para computador.
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MSX 1: foram lançadas duas versões de Out Run para MSX. A do MSX 1 era meramente uma conversão do game do ZX Spectrum, ou seja, má notícia para os pobres donos de MSX na época. Como pão de pobre sempre cai com a margarina virada para o chão, ADIVINHEM qual foi a única versão de Out Run que eu tive na infância/adolescência? Tadããã … a “maravilhosa” conversão para MSX da horrível versão do Spectrum. Triste, hein?
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MSX 2: O pessoal que tinha MSX 2 deu mais sorte, pois podiam contar com uma versão feita pela Pony Canion (responsável pelo abominável Back to the Future do MSX, um dos games que eu mais ODEIO na minha vida!). A versão do MSX 2, é preciso admitir, é bem caprichadinha, com gráficos coloridos e uma jogabilidade bem eficiente. Mas o fato de a Pony Canion ter refeito todos os sprites e gráficos do jogo me incomoda, pois o resultado mais parece uma boa IMITAÇÃO de Out Run do que uma CONVERSÃO propriamente dita. Posso estar sendo chato aqui, mas eu realmente não me sinto jogando um game da Sega quando jogo esse Out Run do MSX 2. De qualquer forma, de todas as versões para microcomputadores que eu conheço, essa é tranquilamente a melhor. Mas lembre-se: isso não quer dizer grande coisa …
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PC-ENGINE: versão incrivelmente boa, quase não dá para acreditar que foi feita para um console de 8-bits (embora seja importante ter em mente que o PC-Engine era, de longe, o videogame de 8-bits mais poderoso da época). A música, o framerate e a jogabilidade ainda ficam bem atrás do game do arcade, mas os gráficos ficaram bastante próximos. E – cara! – como é bom ver a Ferrari vermelha grande e bonita, ao invés daquela miniatura da versão do Master System. Mas cuidado com as comparações, hein? Muita gente maldosa gosta de espinafrar o game do Master comparando-a com essa versão do PC-Engine, mas é bom lembrar que a versão do Master System foi lançada quatro anos antes desta!
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GAME GEAR: a versão de Out Run para o portátil da Sega até que impressiona. Lançada em 1991, ela mostra que houve uma evidente preocupação da Sega em dar uma melhorada nos gráficos em relação à versão do Master System. Apesar dos bons gráficos, o veículo continua minúsculo, repetindo o que já se via na versão do Master. Uma novidade interessante foi o acréscimo de um modo de troca automática de marchas, que deixa o jogo BEM mais fácil para os gamers mais manetas (entre os quais me incluo). Enfim, apesar de estar léguas de distância atrás do original do arcade, a versão de Out Run para Game Gear é bastante competente para um console portátil do começo dos anos 90 e até se pode dizer que, em vários aspectos, é superior à versão do Master System  (da qual, no entanto, eu continuo gostando mais).
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MEGA DRIVE: covardia, né? É claro que essa é a melhor versão de Out Run lançada para consoles caseiros na época. O resultado ficou excelente, embora ainda com algumas simplificações em relação ao original do arcade. Mas, se você não for muito chato, dá pra dizer que a versão do Mega não fica devendo quase nada para o arcade em termos de visual e jogabilidade. As músicas soam maravilhosas também, e rola aquele “feeling” de game da Sega em tudo (gráficos, sons, gameplay, etc), da tela de abertura até o final de cada partida. Se você quer realmente se divertir jogando Out Run – e não meramente se envolver numa escavação arqueológica retrogamer – então a versão do Mega Drive é a única que eu recomendo (além do original do arcade, é claro). Mas não custa lembrar que essa versão – assim como a do PC-Engine – só saiu em 1991, quatro anos depois da versão do Master System, numa época em que o interesse dos jogadores por Out Run já não era mais o mesmo.

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Out Run (MSX 1)

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CALIFORNIA GAMES (Jogos de Verão) – 1989, Master System

Ahhh, o verão! Sal, sol, calor – época de praia, de garotas de biquini, banhos de mar e esportes, certo? OK, eu sei que exercícios físicos cansam e dão trabalho! Mas não se preocupe: California Games é a resposta para quem quer fazer alguns esportes radicais no litoral sem passar trabalho.


California Games fez bastante sucesso no mundo todo, e no Brasil não foi diferente. A principal razão do sucesso do jogo por aqui se deve ao fato de que o California Games do Master System é uma das melhores versões (senão A melhor) do jogo, e conta também o fato de que o Brasil é tranquilamente o lugar do mundo onde o Master mais fez sucesso. Lançado pela nossa Tec Toy com o título de Jogos de Verão, California Games se tornou um hit do Master e um dos jogos mais lembrados daquela época. No começo dos anos 90, o sucesso do jogo chegou a levar a Tec Toy a lançar uma edição do Master System que vinha acompanhada do “Jogos de Verão”.

Apesar de, no nosso país, California Games sempre ter sido considerado basicamente como “um jogo do Master System”, o game na verdade foi originalmente lançado em 1987 para os microcomputadores Apple II e Commodore 64. A boa receptividade fez com que o jogo fosse convertido para tudo o que era máquina de rodar games da época – Amiga, Atari ST, Lynx, PC-DOS, ZX Spectrum, Nintendo 8-bits, Mega Drive e – pasmem! – até para o já então jurássico Atari 2600. De qualquer forma, existe um certo consenso de que a versão do Master é uma das melhores (para vocês terem uma ideia, ela é geralmente considerada superior à versão do Mega Drive, apesar desta ter gráficos bem melhores).


Um ponto particularmente positivo do California Games do Master System é que essa versão conseguiu capturar, através de seus gráficos e cores, a atmosfera “praiana” que dá alma ao jogo. Outras versões, por vezes em decorrência das limitações de hardware das plataformas, acabaram falhando nesse quesito da ambientação. A qualidade do hardware do Master em relação a outras máquinas de 8-bits falou alto em California Games.


Uma coisa que poucos sabem é que California Games não foi propriamente um título “isolado”, mas sim apenas mais um game numa série de oito títulos esportivos lançados pela desenvolvedora Epyx entre 1984 e 1990. O último destes jogos foi precisamente California Games 2, uma continuação para o mais bem sucedido título da série esportiva da empresa. Apesar disso, a continuação não conseguiu repetir o mesmo sucesso do original.

A mania da Enyx por games de esportes começou em 1984 com Summer Games, e foi provavelmente daí que a Tec Toy “roubou” o nome “Jogos de Verão” para o California Games aqui no Brasil. Fica a dúvida: e se, depois de “Jogos de Verão”, a Tec Toy tivesse lançado Summer Games no Brasil, que nome daria para o game? “Jogos da Califórnia”, para confundir tudo de vez?


California Games consiste em seis modalidades esportivas: HALF PIPE (skate numa rampa), FOOT BAG (um excêntrico jogo de embaixadinhas com uma bolinha de pingue-pongue), SURFING (precisa explicar?), SKATING (patins no calçadão da praia), BMX (bicicross) e FLYING DISK (arremesso de disco). Um grande barato do jogo é que você pode jogar sozinho ou com até oito pessoas, cada uma jogando na sua vez e registrando seu recorde. Além do número de jogadores, também é possível competir em apenas uma modalidade, em várias ou em todas. Em outras palavras, California Games é um ótimo jogo para fazer competições com os amigos.


Apesar da qualidade do jogo (ainda mais se tratando da versão do Master System), não dá pra deixar de observar alguns problemas em California Games. O primeiro deles é o fator frustração. Cada modalidade possui uma jogabilidade específica, com comandos próprios, e às vezes não é fácil (e nada intuitivo) descobrir como dominar cada uma. Eu sei que hoje é muito fácil descobrir tudo isso na internet, mas estou procurando avaliá-lo não pela minha visão de 2011, mas sim pelas impressões que o jogo me causava na época em que eu o jogava com mais habitualidade, ali por volta de 1994/1995. Até hoje eu não consegui compreender direito como funciona o Half Pipe, e nunca consegui fazer um score realmente bom no Surfing, embora sempre tenha sido uma das minhas modalidades favoritas. Mas, depois que vi o videoreview de Winter Games feito pelo Angry Videogame Nerd, creio que uma pitada de má-jogabilidade é uma coisa constante em todos os títulos esportivos da Enyx (embora em California Games a coisa não seja tão grave e frustrante quanto em Winter Games).


A qualidade de cada modalidade específica acaba tornando California Games um jogo bastante irregular. Skating tem gráficos ótimos e talvez a melhor jogabilidade entre todas as modalidades. BMX tem bons gráficos mas a jogabilidade já não é tão boa. Surfing é talvez a modalidade de maior apelo visual, mas a jogabilidade é extremamente limitada e um pouco frustrante. Já Flying Disk e Foot Bag são “paradas” e burocráticas demais, mas pelo menos a jogabilidade é mais intuitiva.


Apesar dos seus defeitos, California Games é um clássico absoluto do Master System, um orguho para a biblioteca de jogos do console (já que sua versão botava as outras no chinelo) e, junto com o clássico Out Run, um dos games “praianos” mais interessantes já feitos até hoje. Você não pode ter um verdadeiro verão retrogamer sem jogá-lo, nem que seja para descobrir que, como diz a letra daquela velha música dos Replicantes, você NÃO SURFA NADA!

“Vai, surfista calhorda!!!”


Peguei três discos em três tentativas! Yeahhh!!!

 

Olha o tubarão dando o ar da graça!

 

Às vezes, ir à praia pode ser muito frustrante.

Adoro essa plaquinha! Onde já se viu praia com URSOS?!?

 

Pegando um tubo. Um raro momento de glória!


Apesar do esforço e dedicação, meu score no surf nunca fica muito melhor do que isso!

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CALIFORNIA GAMES em outras plataformas

Commodore 64

Apple II

ZX Spectrum

MSX

Amstrad CPC

Atari 2600.

PC (DOS)

Nintendo 8-bits

Amiga

Mega Drive


SUPER MONACO GP (1990, Mega Drive, Master System, Game Gear)


Super Monaco GP é um game que não me desperta nenhum tipo de sentimentalismo, pois eu nunca joguei o game original do arcade, não me recordo de ter jogado as versões do Mega Drive e do Game Gear na infância ou adolescência e sempre achei uma porcaria a versão do Master System, a única que joguei bastante.


Vocês devem estar se perguntando “ué, mas então por que resenhar esse jogo?”. Simples: no finalzinho dos anos 80 e começo dos 90, Super Monaco GP era sinônimo de game de corrida de Fórmula-1 “de ponta”. O jogo representava o que havia de mais moderno nesse estilo no universo videogâmico (claro que estou falando da versão do Mega Drive, e não das pobres versões 8-bits). Portanto, para fins de arqueologia retrogamer, é um jogo que vale à pena desenterrar.

Super Monaco GP foi lançado pela Sega originalmente nos arcades, em 1989, como uma espécie de “super sequência tardia” de um arcade ancestral da empresa, chamado Monaco GP, lançado em 1979 (e que ainda teve uma sequência chamada Pro Monaco GP, em 1980).  Nunca joguei o Super Monaco GP dos arcades (acho que nunca sequer o vi, na verdade), mas isso não era importante naqueles tempos. Na virada dos anos 80 para 90, boa parte dessas adaptações de arcades da Sega para o Mega Drive (como Altered Beast, Golden Axe e Super Monaco GP) eram simplesmente consideradas como games próprios do Mega Drive. De regra, ninguém via Altered Beast, Golden Axe ou Super Monaco GP como “adaptações de arcades”, nem ficava fazendo comparações entre as versões do Mega com os originais. Frequentemente, sequer tínhamos conhecimento de que tais games haviam surgido nos arcades, e simplesmente víamos tais jogos como “games do Mega Drive”, adaptados de vez em quando para  o Master System.


Por isso, a plataforma na qual Super Monaco GP se consagrou foi realmente no Mega Drive. E, tecnicamente, é forçoso reconhecer que o game matava a pau para a época do seu lançamento. A então tradicional revista norte-americana Electronic Gaming Monthly, por exemplo, soltou a franga ao analisar o game, e deu para ele nota 10-10-9-9, o que era uma coisa sem precedentes até então. O jogo, no geral, foi bastante aclamado por crítica e público. Não é por nada que, como eu referi antes, Super Monaco GP se converteu em sinônimo de “simulação de Fórmula-1” nos primeiros anos dos consoles de 16-bits.


Mas, antes de sair correndo para conferir essa “maravilha”, fique atento para algumas considerações importantes: o Super Monaco GP do Mega Drive simplesmente não envelheceu bem. Os gráficos são ótimos para a época, e a variedade de pistas é surpreendente (são 16 circuitos diferentes, se bem me recordo), mas a mecânica do jogo é simplesmente irreal demais para os padrões atuais. Por exemplo: o jogo adota aquele típico critério de “qualify” dos jogos de arcade da Sega, ou seja, o jogador não tem como terminar a corrida a menos que se qualifique numa posição mínima definida pelo jogo. Caso contrário, é game over na cara, no meio da corrida, de uma hora para outra. É realmente frustrante a forma como esse game não respeita qualquer regra da Fórmula-1 de verdade, mostrando-se na prática mais parecido com a mecânica de qualquer outro arcade de corrida da Sega.

A reprodução do traçado da pista é duvidosa, e o mapa que aparece na tela é virtualmente inútil, pois a impressão que dá é que ele não mostra as curvas menores, induzindo o jogador a pensar que está passando por tranquilas e longas retas quando, de repente, aparece uma curvinha (ou sequência de curvinhas) que frequentemente ferram completamente com o desempenho do jogador. As limitações gráficas literalmente dão a impressão de que as curvas aparecem do nada. Os cenários de fundo são bem feitos e mudam de um circuito para outro, mas os detalhes próximos à pista são pobres e superficiais demais, e não cumprem a contento a tarefa de situar e ambientar o jogador.

Enfim, embora tenha sido um marco em sua época, o Super Monaco GP do Mega Drive (ao contrário de tantos outros bons games do console) perdeu muito de seu apelo nesses vinte anos que se passaram, e hoje simplesmente não representa mais uma diversão recomendável.


Apesar disso, pelo menos o game era ótimo para os padrões da época em que foi lançado. O mesmo não se pode dizer da terrível versão para Master System, que infelizmente foi a única que eu joguei bastante nos anos 90 (por teimosia, creio eu). Muitos dos games lançados para o Master System eram adaptações simplificadas de jogos do Mega Drive, e isso era muito natural, sendo que na maioria das vezes essas conversões eram extremamente competentes (isso quando não eram absolutamente únicas e diferenciadas, como Castle of Illusion, por exemplo). Mas Super Monaco GP é um raro caso de jogo de Mega Drive cuja versão para o Master não tem absolutamente nada a ver com o game do console de 16-bits, sendo que basicamente a única coisa que as versões tinham em comum era o título do jogo.

A versão do Master abria mão da visão em primeira pessoa do game do Mega Drive, exibindo o veículo do jogador através de uma perspectiva traseira. O visual ficou horrível, mais parecendo um game de Atari levemente melhorado. Para piorar, uma bizarrice: mesmo jogando sozinho, o jogador era obrigado a dividir a tela com um adversário chamado “computer. Deixa eu explicar melhor: era o jogador contra uns quinze adversários controlados pelo videogame, todos com nomes humanos, exceto por um adversário especial – também controlado pelo videogame – chamado “computer“, cuja visão ficava aparecendo em tempo integral durante a corrida, ocupando metade da tela do jogador.

Sério, eu jogo videogame há quase vinte e cinco anos, e não me recordo de já ter visto uma coisa assim tão idiota em um game de corrida. Se estou jogando sozinho, por que dividir a tela como se estivesse jogando em modo two-players?!? Por que, entre quinze adversários controlados pelo computador, escolher um deles para ser chamado de “computer”, enquanto todos os outros têm nome de gente?!? O que essa equipe da Sega estava fumando quando elaborou essa conversão horrorosa para o Master?

Como se tudo isso já não fosse ruim o bastante, a jogabilidade do Super Monaco GP do Master ainda é abominável. Nas retas, o jogador pode acelerar tanto quanto quiser e quase não precisa jogar, pois virtualmente não há como errar ou perder alguma ultrapassagem. Já nas curvas, o jogador precisa lutar não para fazê-las com a menor perda de velocidade possível, mas sim de modo que o motor não exploda. Sim, o motor fica EXPLODINDO nas curvas o tempo todo, obrigando o jogador a reduzir a velocidade, mas não para manter o controle do carro e/ou se manter na pista, e sim para que o carro pare de fazer aquele barulho chato de motor quase explodindo, e para que o veículo não chegue a colapsar de vez. É tudo tão ridículo e frustrante que mal dá para acreditar!


Felizmente, a Sega aparentemente teve consciência das diversas falhas da horrível versão do Master System, e fez um trabalho bem melhor posteriormente, quando lançou o jogo para o Game Gear. Na versão do Game Gear, toda a tela é ocupada com a visão do jogador, sendo que o famigerado corredor “computer” desapareceu (obrigado, Senhor!). Aquela coisa irritante de o motor ficar estourando nas curvas também acabou, e nessa versão o desafio consiste basicamente em fazer as curvas sem dar de cara com as muitas placas que surgem a todo momento. Além disso, essa versão portátil é bem mais rápida que a do Master, proporcionando uma sensação de velocidade e ação mais convincente. Não vou chegar a dizer que o Super Monaco GP do Game Gear é um jogo “bom”, mas é indiscutivelmente muito melhor do que a versão do Master System e, para um jogo de videogame portátil lançado em 1990, o jogo é bastante decente e aceitável.


Além de ter dado as caras em todos os consoles da Sega da época, Super Monaco GP ainda ganhou adaptações para os microcomputadores Amiga, Amstrad CPC, Atari ST, Commodore 64 e ZX Spectrum. Não tive paciência para experimentá-las, mas vi alguns reviews e vídeos da versão do ZX Spectrum e (tirando a paleta de cores pobre) essa versão é claramente muito, mas MUITO superior às versões do Master System e do Game Gear. E isso, meus amigos, é uma VERGONHA! Não me entendam mal, eu sou um fã ardoroso do célebre micrinho britânico, mas o hardware do Master System era incomparavelmente mais poderoso do que o do Spectrum, e portanto é realmente contrangedor ver que esse micro recebeu uma versão de Super Monaco GP muito mais eficiente e decente do que a que foi lançada para o Master.

Três anos depois, a Sega lançaria uma continuação de Super Monaco GP, que novamente saiu para Mega Drive/Master System/Game Gear e foi estrelada por um famoso piloto brasileiro de Fórmula-1. Mas isso já é uma história para outra hora …

SONIC CHAOS (1993, Master System e Game Gear)

Quando Sonic – The Hedgehog chegou arrasando no Mega Drive em 1991, tornando-se um dos grandes lançamentos daquele ano, parecia improvável que a Sega fosse se preocupar em adaptar o game do seu novo mascote para o Master System. Afinal de contas, o velho Master já estava no mercado há seis anos e o seu sucessor de 16-bits já estava bem estabelecido. Embora firme e forte no Brasil (um dos mercados em que o Master System mais fez sucesso em todo o mundo), no Japão e nos EUA o Master já era um console virtualmente liquidado.


Por isso, foi uma grande surpresa que, ainda em 1991, a Sega tenha lançado para o Master System uma excelente adaptação de Sonic – The Hedgehog (já resenhado do começo ao fim aqui no Cemetery Games). Mas a surpresa maior foi ver o Master System ganhando também uma versão da sequência Sonic 2, no ano seguinte, e em 1993 uma aventura exclusiva do herói, chamada Sonic Chaos (Sonic & Tails no Japão).


Sonic Chaos surpreendeu, de cara, por ter sido o primeiro título do Sonic exclusivo para plataformas de 8-bits. Além disso, foi o primeiro Sonic de 8-bits a trazer Tails como personagem jogável. O jogo apresentou algumas novidades aqui e ali, como mísseis que fazem Sonic sair voando pela tela e loopings em forma de espiral. Mas, no geral, é um Sonic no melhor estilo tradicional, bastante parecido com as aventuras anteriores do personagem no Game Gear/Master System.


Tecnicamente, os gráficos de Sonic Chaos não impressionam tanto quanto os do Sonic – The Hedgehog do Master/Game Gear, mas mesmo assim são bonitos e coloridos. As duas versões de Sonic Chaos são mais ou menos equivalentes, e é difícil saber se é um jogo de Master que ganhou versão para Game Gear ou se foi o contrário. Nos primeiros anos do Game Gear, o normal era que os jogos do portátil fossem simples conversões de jogos do Master. Alguns anos depois, por vezes se verificava exatamente o contrário (mas, pelo menos segundo a Wikipedia, Sonic Chaos teria sido feito primeiro para o Master e depois adaptado para o Game Gear).


Na época em que esse jogo era recente, eu joguei (e terminei!) ele na versão do Master System, mas jogando num Game Gear através do adaptador Master System Converter (um brinquedinho dos velhos tempos que também já foi resenhado aqui no blog). Mas agora, jogando novamente o game para esta análise, fiquei com a nítida impressão de que a versão do Game Gear é mais rápida e que tem menos slowdowns do que a versão do Master. Fiz o teste em mais de um emulador, e essa impressão se manteve.


Não tenho o cartucho do Sonic Chaos do Master, mas tenho o do Game Gear, e resolvi experimentar um pouco do jogo no console real. Infelizmente, meu Game Gear aparentemente está com algum problema técnico e não colaborou. Enfim, graças a Deus pelos emuladores! Entre consoles convencionais e portáteis, antigos e contemporâneos, eu tenho doze videogames na minha casa. Já pensaram se precisássemos depender do bom funcionamento  de tantos consoles, cada um com duas décadas (ou mais) e com seu próprio conjunto de fontes, joysticks pifados e cabos com mau contato? Arghhh!!!!  (Apesar da minha frustração momentânea, quero esclarecer que, a rigor, todos os meus consoles estão funcionando, por incrível que pareça).


Além dessa questão da velocidade, a única outra diferença essencial entre as duas versões de Sonic Chaos está nas proporções do personagem e do cenário. Na versão do Game Gear, Sonic é maior e a área de visão do jogador é menor. Apesar disso, eu ainda arrisco dizer que, no final das contas, o visual do jogo no Game Gear é o que se sai melhor. Na época, a então prestigiada revista americana Electronic Gaming Monthly elegeu Sonic Chaos como o melhor jogo de Game Gear de 1993. Realmente, para um game portátil, Sonic Chaos matava a pau (tecnicamente, não havia nada nem parecido no monocromático portátil da Nintendo). No Master System, no entanto, já rolava aquela inevitável comparação com os Sonics do Mega Drive, que eram muito superiores.

A trama é aquela mesma baboseira de todos os jogos da série, com o ensandecido cientista malévolo Dr. Robotnik tentando dominar o mundo através do poder místico das Esmeraldas do Caos. O design de fases também não é muito original, e copia mais ou menos “na cara dura” as orientações dos jogos anteriores – tem a fase das colinas verdejantes, a fase do cenário urbano/industrial, etc. Mas, no geral, Sonic Chaos é bem mais fácil do que os games anteriores do personagem nos consoles de 8-bits da Sega.


A versão do Game Gear de Sonic Chaos foi relançada em 2003 como um bônus escondido no game Sonic Adventure DX (Game Cube/PC). Ele também foi incluído na coletânea Sonic Mega Collection Plus (Playstation 2/Xbox/PC). Em 2009, a versão do Master System foi disponibilizada no Virtual Console do Nintendo Wii. Em 1994, Sonic Chaos ganhou uma continuação chamada Sonic Triple Trouble (Sonic & Tails 2 no Japão), mas desta vez o jogo só saiu para o Game Gear.


Embora seja um título exclusivo dos 8-bits, não seria exatamente correto dizer que Sonic Chaos foi “o primeiro Sonic exclusivo dos 8-bits”. Afinal de contas, não custa lembrar que as versões de Sonic – The Hedgehog e Sonic 2 para os consoles de 8-bits da Sega eram totalmente diferentes (em termos de design de fases) dos originais do Mega Drive. Ou seja, os dois primeiros Sonics do Master/Game Gear já eram, de certa forma, exclusivos destas plataformas. E a verdade é que Sonic Chaos não é tão bom quanto aqueles dois primeiros jogos. Mas para os fãs do Sonic dos velhos tempos, o importante é que se trata de um game do personagem no estilo clássico que o consagrou, e só isso já é motivo para recomendá-lo. Converter a beleza e a ação dos Sonics do Mega Drive para o limitado hardware do Master System e do Game Gear implicava em naturais perdas de qualidade, mas mesmo assim Sonic Chaos é um game legal, fiel às origens do personagem e digno de carregar o nome do Sonic, o que já é muito mais do que se pode dizer de boa parte dos jogos do azulão lançados na última década.