KING’S VALLEY (1985, MSX)

Em setembro de 1992, no meu aniversário de 11 anos, ganhei um computador Expert da Gradiente – compatível com o padrão MSX 1 internacional. Minha felicidade não podia ser descrita em palavras. Naquela época, eu já “namorava” o padrão MSX há algum tempo. Embora o MSX não tenha feito sucesso significativo no mercado norte-americano, em alguns lugares (como Brasil e Japão) o MSX foi simplesmente O computador pessoal definitivo dos anos 80. O laboratório de informática da minha escola era dominado por máquinas compatíveis com o padrão MSX (mais especificamente, por outro clone nacional famoso da época – o HotBit da Sharp), e ter um MSX em casa para chamar de meu era um verdadeiro sonho naqueles tempos. Eu sei que, para os padrões de 1992, o MSX (ainda mais o modelo 1) já se tratava de uma máquina relativamente obsoleta e sem condições de competir com concorrentes mais poderosos e modernos como o Amiga da Commodore e, principalmente, com o padrão IBM-PC – que já começava a se tornar progressivamente dominante. No entanto, nada disso atrapalhou os meus anos de amor pelo meu primeiro computador pessoal.

O MSX Expert da Gradiente era mil vezes mais bonito do que o seu concorrente direto, o HotBit da Sharp. Pronto, falei!

O acesso ao MSX me permitiu ingressar no mundo da programação em Basic (e também em Logo, um pouco), bem como o acesso a alguns programas e utilitários interessantes. No entanto, o que mais marcou para mim, naturalmente, foi a vasta biblioteca de games da plataforma. Eu já era fã de games de ZX Spectrum há alguns anos, por conta de um tio que tinha um clone nacional do Spectrum (o TK-95 da Microdigital). O MSX era repleto de conversões de jogos de Spectrum (frequentemente mais lentas que as originais, mas na época eu não dava a menor bola para isso), mas contava com uma grande quantidade de títulos exclusivos e que faziam melhor uso das capacidades gráficas e sonoras da máquina. Muitas empresas lançavam games para o padrão MSX na segunda metade dos anos 1980, mas havia uma companhia em especial que era a rainha absoluta da plataforma, pela quantidade (e sobretudo qualidade) de seus jogos: a Konami.

Hoje famosa, a desenvolvedora tem uma história cujo início se confunde em parte com a própria história do padrão MSX. Franquias famosas de games da Konami, como Metal Gear, tiveram seu início no MSX. Outras, como Castlevania e Nemesis (também conhecida como Gradius) tiveram jogos lançados exclusivamente para a plataforma.

Por tudo isso, não é se admirar quando alguém fala sobre algum ótimo game da Konami para MSX. A lista é longa. Hoje vamos falar de um que eu conheci nos meus tempos de MSX no começo dos anos 90 e que permanece sendo, depois de décadas, um dos meus favoritos absolutos da plataforma: King’s Valley.

King’s Valley é um jogo que mistura plataforma com um certo espírito de puzzle. Na pele de um aventureiro arqueólogo (uma espécie de pequeno Indiana Jones estilizado), o jogador precisa coletar joias escondidas em antigas tumbas egípcias ao longo de 15 pirâmides espalhadas pelo Vale dos Reis. Parece fácil? O problema é que cada tumba é vigiada por múmias assassinas incansáveis, que não dão descanso para o intrépido explorador.

Para ajudá-lo em sua missão, nosso herói conta com poucos recursos. Espadas encontradas nas tumbas ajudam a “matar” as múmias. No entanto, trata-se um alívio temporário, pois elas voltam à vida e reaparecem em questão de segundos. Ferramentas de escavação ajudam o aventureiro a chegar até as joias mais escondidas e enterradas. E … bem, era isso. Isso é tudo o que você terá à disposição para localizar todas as joias ao longo de 15 pirâmides e escapar com vida da fúria vingativa das coloridas múmias.

Oh, mummy!

Com “apenas” 15 fases, King’s Valley pode parecer um jogo “fácil”. Não é. Jamais cheguei ao final dele na época em que tive um MSX. Hoje em dia, jogando com emuladores e podendo se valer de recursos de “save state”, a tarefa se torna relativamente tranquila e o jogo pode ser concluído em questão de poucas horas de insistência. No entanto, quem jogava o game na máquina original era obrigado a vencer as 15 fases corridas, de uma só vez, sem qualquer recurso de save ou password, contando com apenas um pequeno punhado de vidas. Não era bolinho!

O visual e a música de King’s Valley tornam o jogo instantaneamente adorável e contribuem muito para torná-lo viciante, e a mecânica simples contribui para isso. Mas, se você quiser jogá-lo a sério, prepare-se para certa dose de choro e ranger de dentes. Um movimento em falso e você ficará preso entre paredes, tendo que sacrificar uma vida (apertando F2 no teclado). Uma escavação mal calculada e você perderá à toa uma ferramenta, ficando sem ter como chegar em todas as jóias da fase. Tudo isso em meio ao assédio interminável das múmias imortais, obstinadas em frustrar o seu avanço. Ah, e quando você pegar todas as joias e ver a porta de saída sendo revelada, tome cuidado para não confundi-la com a porta (idêntica) pela qual você entrou na fase. Caso contrário, você retornará ao nível anterior. É isso aí mesmo, a vida não é fácil. Achou que era barbadinha bancar o Indiana Jones?

Nosso destemido aventureiro!

Além da versão original, King’s Valley também ganhou uma versão posterior para MSX (lançada exclusivamente em disquetes) que continha nada menos do que 60 (!) fases e vinha acompanhada de um editor de níveis. Embora eu lembre que a versão que eu tinha do jogo vinha em disquete, não me recordo se era a versão original ou a expandida. De qualquer forma, como eu nunca cheguei nem ao fim das 15 fases originais, o adicional realmente não traria grande vantagem para mim.

Em termos de mecânica, temática e estética, King’s Valley apresenta algumas semelhanças com Tutankham, um jogo que a Konami lançou para arcades em 1982. King´s Valley também possui aparente inspiração no game Lode Runner, de 1983, um clássico dos anos 80. De qualquer forma, apesar do mérito destes precursores, para mim não há nem comparação possível: King’s Valley não apenas é muito mais divertido como conta com gráficos e sons muito superiores aos títulos assemelhados que o antecederam.

Trinta e seis anos depois de seu lançamento, King’s Valley continua sendo um game divertido, inesquecível (principalmente para os “MSX maníacos” que ainda celebram a plataforma) e até mesmo influente. La-Mulana e Spelunky (cada um com uma ótima sequência já lançada) são exemplos de jogos “indie” recentes, que fizeram muito sucesso e que claramente têm King’s Valley entre suas fontes de inspiração.

La-Mulana (2012)

King’s Valley foi lançado em 1998 para o Playstation 1, como parte da coletânea Konami Antiques MSX Collection Volume 3. Saiu também para o Sega Saturn, mais ou menos na mesma época, em outra coletânea chamada Ultra Pack. Alguns anos depois, ganhou uma versão mobile para celulares. Mais importante do que isso, no entanto, é a sequência King’s Valley II, lançada em 1988 pela Konami – mais uma vez, exclusivamente para MSX. Mas isso já é assunto para um próximo review aqui no Cemetery Games!

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