BIG TROUBLE IN LITTLE CHINA (1987, ZX Spectrum e Commodore 64)

Big Trouble in Little China (conhecido aqui no Brasil como “Os Aventureiros do Bairro Proibido“) é um dos meus filmes oitentistas favoritos. Lançado em 1986 e dirigido por John Carpenter, o filme fez minha alegria em várias “Sessões da Tarde” durante a minha infância.

O filme tinha tudo: humor, terror, aventura, meu ídolo Kurt “Snake Plissken” Russel, a gatíssima Kim Cattrall (antes de ela virar aquela chata de meia-idade do Sex and the City), monstros, um velho feiticeiro morto-vivo chinês … uma festa, enfim!

Pelo bem das minhas queridas memórias de infância, fico feliz de jamais ter tido contato naquela época com esse horrível, nojento, asqueroso, péssimo e podrérrimo game de mesmo nome, lançado em 1987 para os microcomputadores ZX Spectrum e Commodore 64, na tentativa de ganhar uns trocados em cima do filme. Não deve ter dado muito certo. Primeiro, porque mesmo o filme – que é ótimo – foi um fracasso de bilheteria. Segundo, porque o jogo é muito, mas MUITO ruim.


Big Trouble in Little China é essencialmente o mesmo game tanto no Spectrum quanto no C64. A principal diferença está no visual, que reproduz as típicas qualidades e deficiências dos dois micros. Enquanto que a versão do Spectrum tem gráficos mais definidos mas peca pela pobreza de cores, a versão do C64 é bem colorida – mas sofre daquela resolução gráfica abominável, típica do sistema, que quase lembra os padrões do pioneiro Atari 2600.


Presumivelmente, a história do jogo é a mesma do filme: o caminhoneiro Jack Burton e seu amigo Wang Chi precisam resgatar suas namoradas, raptadas por uma gangue sobrenatual de Chinatown, cujo mestre é um feiticeiro fantasma chinês chamado Lo Pan.

No game, você pode comandar três personagens: Jack Burton, Wang Chi e o mago Egg Chen. O trio anda junto pelas fases, mas você só pode comandar um de cada vez. Quando o primeiro da fila morre de tanto apanhar, é substituído por um dos outros.


Tudo seria muito bom se não fosse por um “pequeno” detalhe: o único personagem que presta é Jack Burton. Os outros dois lutam tão mal que o destino deles invariavelmente é apanhar até a morte, e a já horrível jogabilidade do game se torna infinitamente pior quando você perde Burton. Aparentemente, é possível coletar armas no decorrer do jogo, mas boa sorte tentando chegar lá apenas com os próprios punhos. Eu, particularmente, não fui além da segunda fase.


A mecânica do jogo é irritantemente repetitiva e sem graça. Você anda por cenários pobres que ficam se repetindo em loopings, dá de cara com um bandido, seus amigos somem, você soca o bandido até a morte, seus amigos reaparecem e então recomeça a caminhada pelo cenário repetitivo. A coisa fica nisso por minutos a fio, até que você finalmente passa de fase e é recompensado com … um cenário repetitivo diferente.

Não há qualquer espaço para movimentos estratégicos nesse jogo, nem qualquer satisfação com as brigas de rua, que são burocráticas e extremamente mal executadas. As lutas são tão chatas que muitas vezes os inimigos simplesmente saltam por cima da sua cabeça e vão embora, liberando o seu caminho. Pelo jeito, até eles acham o jogo chato demais.


Os comandos do game não poderiam ser piores: para bater nos inimigos, você precisa apertar soco juntamente com a tecla “up” ou “down”, para dar um golpe alto ou baixo no adversário. A detecção de colisões é arbitrária e pouco compreensível e as lutas são desajeitadas. Sabe aquele tipo de jogo no qual você não sabe nem dizer com certeza se está acertando os golpes no inimigo ou não? Pois é…

A versão do Commodore 64 recebeu nota 34% na época pela revista ZZap!64. Atualmente, o jogo tem nota 2.6 (de 10!) no site Lemon64, especializado em Commodore 64. No entanto, o que é realmente inacreditável é que a versão do Spectrum ganhou nota 8 da revista Your Sinclair e 7 da revista Crash, duas das mais populares revistas especializadas da época. Não tem explicação, só pode ter rolado dinheiro nessa história aí!

Felizmente, a revista Sinclair User foi mais racional e espinafrou o jogo, dando nota 2/10 para ele. Segundo a revista, os personagens “lutam como se estivessem fazendo uma apresentação de música folclórica russa“. Além disso, o resenhista destacou que o jogo é “absolutamente desprovido de atmosfera, sem efeitos sonoros dignos de nota e que não há nada para ser jogado, pelo menos até onde a vista alcança“.

Para nós retrogamers, que gostamos de cultuar games antigos, às vezes é bom ter um desses “choques de realidade” que nos ajudam a lembrar que, nos velhos tempos, também havia um bocado de games muito ruins no mercado. Quanto a Big Trouble in Little China, assista o filme mais uma vez em DVD e trate de esquecer que este jogo existe. O Bairro pode ser perigoso, mas o que deveria ser PROIBIDO mesmo é essse game!

Anúncios

5 pensamentos sobre “BIG TROUBLE IN LITTLE CHINA (1987, ZX Spectrum e Commodore 64)

  1. Muito bom!

    De fato, o filme é ótimo, mas esse jogo deve ser de amargar.

    E pra constar: esse filme serviu como inspiração na criação de dois personagens clássicos do Mortal Kombat: Rayden (Lightning) e Shang Tsung (Lo Pan).

    E se me permite, quero fazer uma sugestão: que tal uma resenha para outro clássico do Spectrum, “The Rocky Horror Show”?

  2. Oi, Cidraman!

    Eu sabia que os feiticeiros voadores-que-atiram-raios tinham sido a inspiração pro Raiden do MK, mas nunca tinha me dado conta de que o Lo Pan tinha sido a inspiração pro Shang Tsung. Fica realmente bem óbvio quando a gente pensa no assunto hehehe.

    Quanto ao “The Rocky Horror Picture Show”, a sugestão está anotada. Sou um grande fã do filme e já ouvi falar bem do game do Spectrum, então é certo que esse jogo vai ser dissecado aqui no Cemetery Games dentro dos próximos meses. Abraço!

  3. cara…esse filme é um clássico,,,,foi ali que eu vi e muitos diziam que o raiden do mortal kombat nasceu!!!!clássico mesmo….jogo das antigas!!!!

    • Valeu a força, Hernandez! A cena retrogamer brasileira como um todo é muito especial, e cada dia tem mais coisas legais virando old-games e saindo das prateleiras para ficar nas nossas memórias. Continue acompanhando o blog que, principalmente a partir de junho, teremos um volume cada vez maior de belas velharias analisadas, dissecadas e destrinchadas hehehe. Abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s