VICE – PROJECT DOOM (NES, 1991)

Por que nós jogamos games antigos?

Por que gastar tempo com emuladores, roms, consoles antigos (com seus cartuchos velhos e seus contatos empoeirados) e retrogaming em geral, ao invés de simplesmente comprar um videogame de última geração e se embasbacar com as mais recentes novidades e com os gráficos tridimensionais e ultrarealistas?

É claro que não posso responder por todos os retrogamers do mundo, mas eu jogo games antigos por vários motivos. Primeiro: para não perder o contato, para poder continuar tendo à mão aqueles games que me proporcionaram diversão no passado. Assim como gosto de colecionar meus filmes favoritos em DVD e de sempre voltar a ouvir os álbuns que foram marcantes na minha vida, também gosto de voltar a jogar games que, para mim, “marcaram época”.

Segundo: pelas memórias. Para quem cresceu jogando videogame, os jogos eletrônicos fazem parte da história de sua infância e adolescência, assim como os filmes, livros, músicas, brincadeiras, festas com os amigos, etc.

Terceiro: pelo fator “desforra”. A maioria de nós, pelo menos em algum momento da infância/adolescência, babou em cima de um console ou de um game que não podíamos ter, porque era muito caro, porque virtualmente não existia fora do Japão ou qualqer coisa desse tipo.

O retrogaming funciona, assim, como uma espécie de “vingança tardia”. Estamos no Século XXI, baby! Agora não interessa mais se você nunca pôde ter um Mega Drive ou Super Nes, não interessa mais se o PC-Engine era um sonho inacessível até para os ricos aqui no Brasil, não interessa mais se você passou a infância babando em vão por um Neo Geo que nunca veio, não interesse mais se você nunca ganhou um Lynx da Atari ou um Game Gear da Sega. Agora, a maravilhosa Era da Emulação entregou todos esses videogames para você numa bandeja de prata e muitos dos videogames que você cresceu admirando são artigos de colecionador de custo relativamente baixo. Agora, você pode se atirar no sofá da sua sala, colocar o seu Mega Drive (físico ou emulado) para funcionar, botar Golden Axe para rodar, escolher o seu guerreiro e finalmente ir atrás daquele safado do Death Adder para cobrí-lo de porrada! “Devolve o Machado de Ouro, seu halterofilista afrescalhado medieval“! Yeah!

Mas existe um último motivo para ser retrogamer: para jogar bons games que você até poderia ter jogado na época em que foram lançados, mas com os quais, pelas circunstâncias da vida, você acabou jamais tendo contato. Pérolas antigas, por vezes grandes games, que poderiam ter mudado a sua vida e entrado para sempre na sua lista de preferências, mas que ficaram de fora das suas queridas memórias e daquilo que você entende por “games mais legais de todos os tempos”. Pelo menos até agora.

Para mim, Vice – Project Doom do NES se enquadra nessa última categoria.


Eu nunca joguei esse game na época, apenas lembro de ter visto um detonado dele na clássica revista Videogame, ali por volta de 1992. Mas, apenas pelas fotos e texto da matéria, o jogo não chegou a chamar muito a minha atenção.


Mas, agora que eu parei para conhecer esse game, posso dizer com convicção: se você gosta de games de NES, você PRECISA conhecer este game! Imagine uma mistura de Miami Vice, filme de ação dos anos 80, Aventureiros do Bairro Proibido e Ninja Gaiden. Gostou? Claro que sim, não tem como não gostar de uma mistura dessas!

Vamos começar falando com a mais absoluta sinceridade: lançado em 1991, Vice – Project Doom é uma inegável imitação de Ninja Gaiden. A jogabilidade é parecida, as sequências cinemáticas são parecidas, os inimigos são parecidos, algumas fases são parecidas … enfim, nem vamos nos estender muito nesse assunto. É um clone de Ninja Gaiden e não se fala mais nisso. Mas quem dera que todas as imitações fossem assim tão boas! Além de copiar tudo o que Ninja Gaiden tinha de bom, a ilustre desconhecida softhouse Aicom ainda adicionou ao jogo uma série de outras coisas legais: uma temática futurista, três armas diferentes para usar, um clima de filme de ação/aventura oitentista, diversos estilos de fases diferentes além do padrão “side-scrolling, etc.


O quê?!? É um Ninja Gaiden MELHORADO?!? Podem acreditar: sob muitos aspectos, Vice – Project Doom é isso aí mesmo!

Um dos principais aspectos que agradam em Vice é que, nele, não se verifica aquele pesado e onipresente fator-frustração, tão característico de Ninja Gaiden. Não me entenda mal, Vice não chega a ser barbadinha. Mas sua dificuldade é razoável e estimulante, e o game não provoca no jogador aqueles surtos de raiva insana que games doentiamente difíceis como Ninja Gaiden costumavam (e ainda costumam) causar nos pobres jogadores.


Como se não bastasse, Vice surpreende pelas eventuais mudanças de estilo ao longo do jogo. A primeira fase mais parece um derivado do clássico Spy Hunter. Um carro de polícia, andando a milhão pelas rodovias, sai atirando em tudo e todos em busca de um motorista enlouquecido. Quando o jogador começa a se acostumar com essa espécie de shot’em up rodoviário, é subitamente atirado num game de plataforma side-scrolling (o estilo que predomina ao longo de todo o jogo). Mais adiante, rola até uma fase de tiro em primeira pessoa, no melhor estilo Operation Wolf. Nenhuma dessas variações soa forçada ou mal executada, e todos esses momentos são bem legais e contribuem para tornar o game ainda mais viciante. As armas do jogo também são legais: seja com a espada (que mais parece um sabre-de-luz), com a pistola ou com granadas, destruir os inimigos com elas é sempre divertido e eficaz.


Mas, apesar dos ótimos gráficos e da jogabilidade precisa, existe um quesito no qual Vice indiscutivelmente perde feio para o clássico Ninja Gaiden: a música. Enquanto que a trilha sonora do clássico da Tecmo era magnífica (e uma qualidade que contribuía muito para a atmosfera do jogo), em Vice a música é medíocre e dispensável, contribuindo pouco (ok, ok, em NADA) para o andamento do jogo.

O que é REALMENTE difícil de engolir em Vice é a trama do game, que é a coisa mais rocambolesca, mais louca, mais doentia e mais sem pé nem cabeça que eu já vi na minha vida. É uma mistura de Miami Vice com Blade Runner e alienígenas e … é, já deu pra ter uma ideia, né?


O negócio é o seguinte: em Vice – Project Doom, o jogador encarna um detetive chamado Quinn Hart, que trabalha numa delegacia de narcóticos. Estamos num futuro distante e indeterminado, no qual as ruas foram tomadas por uma poderosíssima droga chamada “Gel“, amplamente vendida no submundo. Reese, o parceiro (de trabalho, ok?) de Hart, desapareceu investigando as origens dessa droga, e as investigações de Hart irão levá-lo a Chinatown e até às florestas da América Latina, e ele virá a descobrir que a terrível droga “Gel” na verdade é uma substância que alienígenas que vivem escondidos entre nós usam como alimento. Ai, minha pobre cabeça!


De qualquer forma, esqueça a trama insana e a trilha sonora dispensável. Vice – Project Doom é um dos melhores games de ação/aventura já feitos para um videogame de 8-bits. É tudo tão bem executado que o jogo mais parece um desses games feitos atualmente em homenagem aos jogos “old school” (como Mega Man 9 e coisas do tipo). Vice – Project Doom é uma prova de que, em 1991, os games de 8-bits já haviam alcançado o seu ápice técnico, e que mesmo uma companhia obscura como essa Aicom tinha condições de “tirar o suco” do NES.

E, se você ainda tinha alguma dúvida sobre como é legal ser um retrogamer, Vice – Project Doom é um ótimo argumento para afastar essas dúvidas para sempre.

Fala a verdade: na ilustração da caixa do jogo, o herói Quinn Hart está IGUAL ao Kurt Russel, não acham? Na época, o ator fazia sucesso em filmes de ação como Tango & Cash.

.

Esses efeitos das luzes da cidade sobre a água me lembram da versão de Streets of Rage do Game Gear, já devidamente debulhada aqui no Cemetery Games. Podem me chamar de doido, mas eu ainda acho que gráficos assim são lindos  e evocativos.

.

Por mais que você gosta de felinos, vai ser difícil não ficar de saco cheio deles nessa fase!

.

Este é o chefão dessa fase. MODESTO, hein?!?

.

Confira algumas cenas de Vice – Project Doom que contam a história do jogo:

Anúncios

4 pensamentos sobre “VICE – PROJECT DOOM (NES, 1991)

  1. Mais um excelente texto, muito bom!

    Concordo em gênero, número e grau quanto aos motivos para jogar games antigos.

    E quanto a VICE, também só tive contato através de revistas de videogame. Mais um motivo para agradecer pela existência dos emuladores…

  2. Parabens pelo blog, primeira vez que estou visitando (06/10/11) e fiquei impressionado

    Me identifiquei muito com o motivo pra gostar de “velharia”, principalmente o da “vingança tardia” embora meu Xbox 360 seja um dos meus xodós, não tendo “vivido” os 8 bits (16 sim), meu computador sempre roda mesmo que aos trancos e barrancos os emuladores antigos

    E ja to baixando esse jogo ai. Valeu pela indicação

  3. Olá Henrique

    Nossa. Após tanto tempo (afinal, só pude ler nesse final de semana), é bom saber que você soube apreciar Vice. Eu também sou um desses que só conheceu por emulador anos depois e não tenho do que reclamar. O jogo é muito bom, tem movimentação ótima, gráficos excelente, cut scenes bacanas – e esse lance de contar histórias por meio de cut pode parecer clichê hoje em dia, mas na época eram de um charme só. E apesar dos pesares, até que a história é bacana (rocambolesca foi demais, hhauhuaha)

    E concordo com você, ser retrogamer é ir a desforra por tantos games que ficaram no passado que não pudemos conhecer.

    Um abraço!

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s