ANIVERSÁRIO DE PRIMEIRO ANO DO CEMETERY GAMES!

Neste domingo, 07/03/2010, o CEMETERY GAMES completou um ano de vida! Foram 8.780 visitas registradas nesse primeiro ano de atividades do blog. Para vocês terem uma idéia, o site Cemetery Games original (que ficou no ar entre 2002 e 2005) teve 2.500 visitações registradas ao longo de seus últimos dois anos de existência. Ou seja: o blog atual, na metade deste tempo, teve mais do que três vezes esse número de frequentadores.

É um número impressionante e animador para um projeto totalmente desprovido de divulgação profissional como o Cemetery Games, e mostra o grande interesse que os games antigos despertam nos jogadores de todas as idades.

Quero registrar meu agradecimento a todos os frequentadores, eventuais e habituais, bem como aos parceiros do Cemetery Games: GAGA GAMES, RETROPLAYERS, GLSTOQUE, SHUGAMES e vários outros. Como testemunhas oculares dos dias de glória dos consoles de segunda, terceira e quarta geração de videogames, nós temos o dever não só de relembrar estes tempos com os nossos contemporâneos como, também, de dividir esse conhecimento e essas memórias com a gurizada mais jovem, a “geração Playstation”.

A cena retrogamer brasileira é grande e forte, e nós somos ela! Um grande abraço e parabéns pelo trabalho que vocês estão fazendo.

Não poderia faltar um PAC-bolo de aniversário!

KUNG-FU MASTER (1984 – Arcade, Nes, MSX)

Um dos gêneros de games mais característicos e populares dos anos 80 era o BEAT’ EM UP (algo como “andar e dar porrada”, numa tradução livre e nada literal). O mais renomado representante do estilo naqueles tempos, Double Dragon, era ao mesmo tempo o representante máximo do gênero e o perfeito estereótipo dele: um herói valentão, andando por cenários urbanos, saindo na porrada com gangues de marginais clichê (punks, negões musculosos sem camisa, gente com cabelo colorido, etc) para salvar a namorada raptada pelos bandidos. Na cola de Double Dragon, surgiram alguns dos mais renomados títulos da terceira e quarta geração de videogames, como Streets of Rage, Final Fight, Dragon Ninja, River City Ransom, os vários games das Tartarugas Ninja no estilo e o clássico Golden Axe, que inovou levando o beat’em up dos tradicionais cenários urbanos para um mundo de fantasia medieval.

Apesar disso, pouca gente lembra que o gênero beat’em up, embora popularizado por Double Dragon, não nasceu com ele. Atualmente, existe um certo consenso de que o primeiro beat’em up legítimo foi KUNG-FU MASTER (Spartan X, no original japonês), lançado no final de 1984 nos arcades pela Irem e Data East. Nele, o jogador assumia o papel de Thomas, um habilidoso lutador de artes marciais que invade o esconderijo de um vilão chamado Mr.X, que raptou Sylvia, a namorada do herói.

Arcade

Nunca cheguei a jogar o original dos arcades, mas em 1992 conheci a versão do NES, chamada apenas de KUNG-FU. Um amigo meu tinha acabado de ganhar um Dynavision III e este cartucho tinha vindo com o console. Lembro de ter gostado muito do game, pois a jogabilidade era fluída, haviam vários golpes legais e alguns surpreendentes efeitos de voz digitalizada, o que naturalmente era um luxo para a época. Era o típico game dos “primeiros anos” do NES, longe de figurar entre o que de mais sofisticado o console chegou a apresentar em sua vida útil, mas era um jogo muito bom em sua simplicidade. A versão NES tinha um visual mais econômico do que o game original do arcade, com personagens menores e menos detalhes, mas no geral era uma excelente adaptação.

Nes

Mais ou menos um ano depois, obtive a versão de KUNG-FU MASTER para MSX. O visual desta versão é bem diferente, com personagens mais sérios e menos cartunescos. Ficou bem diferente do arcade e do NES, mas os gráficos são bons no geral. A jogabilidade, no entanto, é mais lenta e os controles não respondem tão bem quanto na versão do NES. Os efeitos de voz digitalizada também estão ausentes no MSX, e o fundo preto não ajudou muito no quesito visual. No geral, é uma versão interessante do clássico, mas a do NES era bem mais legal.

MSX

Na época em que tive um Atari, nunca tomei conhecimento do fato de que o console tinha uma versão de Kung-Fu Master, o que é uma pena. Lançada em 1987, a adaptação do jogo para o clássico (e já velho naquela época) console de segunda geração é surpreendentemente boa, com música fiel ao original e jogabilidade rápida e eficiente. É um dos jogos da 2ª geração mais impressionantes que já vi, do ponto de vista técnico. A ambientação ficou meio prejudicada (os personagens parecem estar usando chapéus ou coisa parecida), mas a ação do original ficou mais ou menos intacta. Realmente, uma conversão milagrosa! Como não poderia deixar de ser, o mérito da obra é da Activision – a softhouse que melhor soube aproveitar os recursos do Atari 2600, muitas vezes tirando leite de pedra e criando vários dos maiores clássicos daquela geração de consoles.

Atari 2600

Kung-Fu Master também teve versões para Atari 7800, Apple II, Commodore 64, Spectrum, DOS e Amstrad CPC, mas nunca cheguei a conhecer nenhuma delas.

Uma curiosidade: o jogo foi baseado no filme Game of Death (1978), estrelado por Bruce Lee. Quem já viu o filme imediatamente reconhecerá, no game original do arcade, o visual do ator e o cenário inspirado na principal locação do filme. Curiosamente, nas adaptações para plataformas domésticas (NES, MSX, etc.) o visual do protagonista foi alterado e as semelhanças óbvias com Bruce Lee, presentes no arcade, desapareceram. Será que rolou medo de processo por uso não autorizado da imagem do autor? Mistério …

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No entanto, no Japão, o game foi batizado de Spartan X para pegar carona no filme chinês de mesmo nome (que não tem nada a ver com o jogo) estrelado pelo popular Jackie Chan. O filme é conhecido no ocidente como Wheels on Meals. Que confusão, né?

KUNG-FU MASTER 2?

Nunca houve um game chamado “Kung-Fu Master 2”, mas isso não significa que esse beat’em up pioneiro nunca tenha recebido continuações. A primeira delas é uma “continuação espiritual” – VIGILANTE, lançado pela Irem em 1988, que possuía jogabilidade semelhante. No entanto, o roteiro e os personagens são diferentes, embora novamente envolvendo um lutador de artes marciais que enfrenta uma gangue para salvar sua namorada.

Em 1990, foi lançado para o Game Boy clássico um game também chamado Kung-Fu Master, que não deixa claro se é um remake ou uma continuação propriamente dita. Apesar da jogabilidade semelhante a do original, essa versão do Game Boy inovava em cenários, roteiro, personagens e golpes.

Por fim, em 1991, sai a verdadeira continuação de Kung-Fu Master: SPARTAN X 2, para o Super Famicom (que era o Super Nes japonês). Infelizmente, como já deu pra notar, o game teve lançamento restrito ao mercado nipônico.

Kung-Fu Master (Game Boy)

CRYSTAL CASTLES (1986, Spectrum)

Em algum ponto da segunda metade dos anos 80, um dos meus tios comprou um microcomputador TK-95, fabricado por aqui pela Microdigital. O aparelho era um clone nacional do ZX Spectrum, que já era um clássico na Inglaterra e fazia sucesso também em outros países (embora praticamente sem penetração nos grandes mercados americano e japonês). Graças a isso, tive contato com dezenas de games maravilhosos e divertidos do Spectrum por anos a fio. E poucos me fisgaram tanto quanto CRYSTAL CASTLES.


Em Crystal Castles, o jogador encarna um ursinho chamado Bentley, que entra num misterioso e gigantesco castelo em busca de gemas valiosas. A jogabilidade era uma espécie de Pac Man em cenários “tridimensionais”, que davam uma boa sensação de profundidade. Enquanto vai catando as gemas espalhadas pelas labirínticas fases, Bentley precisa escapar dos monstros que o perseguem – fantasmas, bruxas, coisas que parecem bolas de boliche, árvores que caminham, bichos que parecem vermes, etc. Embora desarmado, o herói dá pulos com habilidade, o que é muito útil para escapar da morte certa.

O jogo do Spectrum era simplesmente cativante, contando com gráficos bem definidos (apesar do costumeiro visual monocromático), fases silenciosas (a música só aparecia na tela de abertura e quando uma fase era completada), inimigos sinistros (como os fantasmas, as árvores que andam e a bruxa Berthilda), uma jogabilidade viciante e uma sensação de tridimensionalidade nos cenários. Cada fase descoberta despertava a vontade e a curiosidade de vencê-la para conhecer a próxima.

Embora eu tenha crescido achando que Crystal Castles era um game exclusivo do Spectrum, muitos anos depois tive a surpresa de descobrir que o jogo, na verdade, havia sido lançado em 1983 nos arcades e que era um clássico, convertido para diversas outras plataformas, do Atari 2600 ao Commodore 64. Isso representou para mim a prova de que o game era mesmo excelente, e não apenas uma jóia obscura que só eu conhecia. Por outro lado, tive curiosidade de conhecer as outras versões, cogitando a hipótese de que talvez existissem por aí outros Crystal Castles muito superiores e melhores do que aquele que eu tinha jogado na infância.

O curioso é que a versão original dos arcades, que conheci já por meio dos emuladores, não me cativou. Os gráficos coloridos, num primeiro momento, parecem uma vantagem sobre a versão do Spectrum. Mas existem coisas na versão monocromática do velho microcomputador britânico que fazem muita falta no arcade. Primeiro: a aura de mistério. No Spectrum, há uma série de coisas que tornam o jogo lúdico e meio sinistro. Já começa pela tela de abertura, que apresenta o subtítulo “platôs de diamante no espaço” e exibe o onírico castelo, com sua arquitetura peculiar, e de onde irradiam luzes misteriosas na noite estrelada. Essa tela de abertura é um deleite imaginativo – especialmente para uma criança – e a versão do arcade perde MUITO em atmosfera sem ela. Ilustrações de capas da versão Spectrum chegavam a mostrar um grande castelo de cristal literalmente voando no espaço, como sugere o subtítulo.


Outra coisa que gosto muito na versão do Spectrum – e que me decepcionou nas outras versões – é o visual do herói Bentley Bear. No Spectrum, ele é representado com traços “bonitinhos” e um olhar simpático. No arcade e nas demais versões, ele tem olhos pequenos e sem vida, é gorducho  e está vestido como se fosse um travesti da floresta.

Além disso, é duvidoso que as cores tenham acrescentado algo ao jogo. Enquanto que o visual monocromático do Crystal Castles do Spectrum cria uma atmosfera sombria, as poucas cores do original do arcade parecem uma mistura de barro com “cor de burro quando foge”. A profusão de marrom, cinza, dourado e amarelo nas fases gera um visual meio “pesado” e cansativo, que prejudica até o próprio sprite de Bentley, que por vezes mais parece uma pessoa vestida de urso, bem distante daquele ursinho simpático do Spectrum. Por fim, o sinistro e intimidador fantasma que aparece pela primeira vez na terceira fase (“Doomsdome“) não existe no original do arcade, que apresentava um esqueletinho bobo em seu lugar.

Apesar da minha absoluta predileção pela versão Spectrum, o Crystal Castles original dos arcades naturalmente era um excelente jogo, inovador para seu tempo, e foi um grande sucesso. Curiosamente, o único videogame doméstico que ganhou uma conversão do jogo foi o bom e velho Atari 2600 (naturalmente, numa versão pobre de dar dó). Não deixa de ser estranho, já que, por outro lado, o game foi adaptado para uma enorme gama de microcomputadores da época – Apple II, Atari ST, BBC Micro, Acorn Electron, Amstrad CPC, Commodore 64 e Spectrum. Uma possível explicação pode ser o fato de que o jogo foi lançado nos arcades no ano do infame “crash” do mercado de videogames, uma época de naufrágio dos consoles (mesmo o Atari 2600 não resistiu) e anterior à ascensão do Nintendo 8-bits, que revitalizaria o nicho dos consoles domésticos.


A versão do Spectrum dividiu opiniões na época. O jogo levou nota 9.0 da revista Your Sinclair, mas a igualmente célebre revista Crash lhe deu um medíocre 6.5. A revista Computer Gamer o avaliou com um implacável e injustificável 3.5, “detonando” o jogo. A revista ZX Computing avaliou o jogo como “bom”, embora com ressalvas quanto à jogabilidade. A revista Computer & Video Games deu nota 7.0 para o jogo.

A meu ver, uma das maiores razões para o game do Spectrum não ser uma unanimidade se deve ao fato de que ele era uma conversão tardia do arcade, lançado três anos antes. Acredito que, se lançado em 1983, Crystal Castles teria tido uma recepção muito mais calorosa no Spectrum. No entanto, em 1986 um clone de Pac Man (por inventivo que fosse) já não era mais uma coisa tão impressionante – sem falar que, nessa altura, o próprio arcade original já não tinha mais a mesma exposição.

O ursinho Bentley, infelizmente, nunca mais protagonizou outro game. Sua única aparição posterior foi doze anos depois, em 1995, como um dos personagens selecionáveis no obscuro game Atari Karts, lançado para o fracassado console Jaguar.

Vinte e quatro anos se passaram desde o lançamento de Crystal Castles para o Spectrum. Mas ligar o computador de madrugada e explorar esses misteriosos castelos flutuantes de diamante, ao lado do simpático ursinho Bentley, ainda é uma diversão apta a satisfazer qualquer retrogamer.

RETROSPECTIVA SEGA & DISNEY – PARTE II: DONALD, O AVENTUREIRO!


Depois de Castle of Illusion, possivelmente o game da parceria Sega/Disney mais lembrado até hoje é QUACKSHOT, lançado em dezembro de 1991 para o Mega Drive. Com gráficos excelentes, o jogo apresentava o Pato Donald com um visual de Indiana Jones e metido numa aventura de caça-ao-tesouro pelo mundo bem no estilo do famoso arqueólogo do cinema. As referências aos filmes da série Indiana Jones são múltiplas: as roupas de Donald, as letras da tela título, a parte com o carrinho de mina (similar à cena de O Templo da Perdição), a luta com um cavaleiro no fim do game (similar ao cavaleiro que aparece no final de A Última Cruzada), etc.


Na trama, Donald estava fuçando na biblioteca do Tio Patinhas quando encontra, no meio de alguns livros, um velho mapa do tesouro do Rei Garuzia, antigo governante do Grande Reino dos Patos. Vendo nisso a oportunidade de ficar rico, Donald parte em busca de mais pistas sobre o tesouro, tomando as informações do mapa como ponto de partida. O problema é que o vilão João Bafo de Onça toma conhecimento da expedição de Donald e convoca seus capangas para perseguirem o herói pelo mundo para roubar o mapa e botar as mãos no antigo tesouro.

Com gráficos bonitos e detalhados e cenários variados, Quackshot fez sucesso e logo se tornou um dos mais emblemáticos games exclusivos do Mega Drive. O jogo nunca chegou a ser adaptado para outras plataformas. No entanto, quem tinha Master System ou Game Gear não ficou na mão: quase que simultaneamente ao lançamento de Quackshot, a Sega também lançou para estas plataformas um novo game, que era um “equivalente de 8-bits” de Quackshot: THE LUCKY DIME CAPER.

The Lucky Dime Caper começa com o Tio Patinhas presenteando seus sobrinhos Huguinho, Zezinho e Luisinho com três moedas da sorte, explicando que uma moedinha como aquelas tinha sido o começo de sua grande fortuna. Enquanto isso, todos estão sendo observados pela malévola Maga Patalógica, que manda seus corvos negros raptarem todos os meninos e suas respectivas moedinhas. A bruxa ainda aproveita para roubar a moeda da sorte original do Tio Patinhas, que prontamente envia Donald para uma missão de resgate dos meninos e das moedinhas. Em sua busca, Donald passará por ruínas astecas, pirâmides egípcias, florestas, ilhas tropicais, pelo pólo sul e, por fim, terá que adentrar o castelo assombrado da Maga Patalógica na Transilvânia.


The Lucky Dime Caper manteve o alto padrão de qualidade de Quackshot e Castle of Illusion, e se tornou um clássico instantâneo do Master System. Até hoje é comum vê-lo em listas dos melhores games do console de 8-bits da Sega.

Curiosamente, enquanto que Quackshot nunca veio a ter uma continuação, The Lucky Dime Caper teve uma sequência em 1993, novamente lançada para Master System e Game Gear, chamada DEEP DUCK TROUBLE. Dessa vez, Donald se aventurava numa misteriosa ilha para salvar o Tio Patinhas de uma maldição que o transformou num balão flutuante (!), fruto de uma desastrada expedição prévia do velho sovina à ilha. O jogo já foi analisado aqui no Cemetery Games, confira: https://cemeterygames.wordpress.com/2009/03/07/deep-duck-trouble-master-system-1993/

Deep Duck Trouble contava com alguns dos melhores gráficos já vistos num videogame de 8-bits e, sob vários aspectos, era tão bom ou melhor do que The Lucky Dime Caper. Apesar disso, o jogo não chamou muita atenção, pois em 1993 o Master System já era uma plataforma defunta em países como os EUA e o Game Gear continuava num distante segundo lugar no mercado de portáteis, sufocado pela hegemonia quase total do Game Boy da Nintendo. Além disso, os consoles de 8-bits já eram ultrapassados na época, pois os consoles da moda eram o Super Nes e o Mega Drive, que já estavam bem estabelecidos no mercado e travavam uma briga feia pela liderança do mercado.


Na terceira e última parte desta retrospectiva, vamos falar sobre a “ovelha negra” da parceria Sega/Disney: o controverso FANTASIA, de 1991.