A História dos Adventures-Texto, Parte I: COLOSSAL CAVE (ADVENTURE), ADVENTURELAND e MYSTERY HOUSE

Adventure” – você já deve ter ouvido falar desse tipo de jogo. Embora pouco popular na atualidade (embora surjam ocasionalmente alguns novos exemplares do estilo), nos anos 80 e 90 os adventures fizeram um imenso sucesso, principalmente nos computadores (o gênero sempre combinou mais com teclado e mouse do que com joysticks). Quando se fala em adventures, a maioria dos retrogamers pensa nos clássicos da Lucas Arts, como Maniac Mansion (1987), The Secret of Monkey Island (1990), Indiana Jones and the Fate of Atlantis (1993) e Sam & Max (1993). Outros títulos habitualmente lembrados são os jogos da série King’s Quest, da Sierra.

O que muita gente não sabe é que esses “velhos” games dos anos 90 e final dos anos 80 estavam muito longe de representar a origem do gênero adventure – pelo contrário, eles já estavam próximos do ápice evolutivo desse estilo de jogo. Na verdade, a história dos adventures começa no já bem distante ano de 1976, com um game chamado COLOSSAL CAVE ADVENTURE.

Também conhecido como Colossal Cave, Adventure ou simplesmente ADVENT, o jogo foi programado por Will Crowther, que era um programador na empresa Bolt, Baranek & Newman, que desenvolveu a ARPANET. Desenvolvida em conjunto com o MIT e com o Departamento de Defesa norte-americano, a Arpanet foi a primeira grande rede de computadores da história, e representou a gênese daquilo que, duas décadas depois, viria a se tornar a rede global Internet.

Aparentemente, Crowther tinha algumas horas vagas na sua rotina de trabalho, pois em 1976 ele tirou um tempo para programar um joguinho num mainframe PDP-10 (mainframes são computadores enormes, de uso industrial, e nos anos 70 todos os computadores eram basicamente mainframes, pois ainda não existiam os microcomputadores domésticos). Crowther era um espeleólogo (explorador/escalador de cavernas) nas horas vagas, e resolveu criar uma aventura interativa, só com base em textos, que misturava exploração de cavernas com alguns elementos de fantasia.

A grande inspiração de Crowther foi a Mammoth Cave, uma gigantesca caverna que fica no Estado de Kentucky, nos EUA, e que tem a distinção de ser o mais extenso sistema de cavernas conhecido no mundo. Crowther havia visitado a Mammoth Cave alguns anos antes, e pelo jeito o lugar mexeu bastante com a sua imaginação.

Apesar do pioneirismo da iniciativa, para Crowther a sua aventura-texto pelo jeito não passava de um hobby despretensioso, pois o programador simplesmente largou o projeto num canto e não o mostrou pra muita gente. E é aqui que entra a contribuição de um segundo maluco chamado Don Woods, hoje considerado o co-autor de Colossal Cave. Um ano depois de Crowther ter programado o game original, Woods descobriu os arquivos do game num computador na Universidade de Stanford, quando estava na faculdade, e então iniciou uma cruzada para conseguir contato com Crowther. Quando finalmente conseguiu, Woods teve a benção de Crowther para reprogramar o jogo, adicionando mais elementos de fantasia no estilo Senhor dos Anéis, a clássica saga literária de J.R.R Tolkien, da qual Woods era fã.

A primeira plataforma para a qual Woods desenvolveu essa versão “ampliada” de Colossal Cave foi para o mainframe PDP-10, o mesmo monstrengão de laboratório no qual Crowther criou o jogo originalmente. Ambas as versões foram escritas na linguagem de programação FORTRAN, mas as diferenças eram significativas. O jogo de Crowther tinha 700 linhas de código (e mais cerca de 700 linhas de dados), 79 locações no mapa total do jogo e um vocabulário de 193 palavras. A versão de Woods, por sua vez, tinha 3000 linhas de código, 1800 linhas de dados, 140 locações no mapa e um vocabulário de 293 palavras.

Jogar um game sem nenhum gráfico, baseado apenas em textos na tela, é coisa que pode soar como loucura para os jogadores de hoje, cercados pelo realismo fotográfico dos jogos de consoles como Xbox 360 e Playstation 3. Mas houve uma época em que essa exploração de mundos virtuais na imaginação do jogador parecia abrir possibilidades quase ilimitadas (e não custa lembrar que as pessoas já estavam mais ou menos acostumadas com essa ideia de “jogar com a imaginação”, pois os RPGs de mesa estilo Dungeons & Dragons já faziam algum sucesso na época).

Nos cinco anos seguintes, Colossal Cave ganhou a consagração em praticamente todo e qualquer microcomputador que apareceu no começo dos anos 80. Para você ter uma ideia, o Osborne 1 (considerado o primeiro microcomputador comercialmente bem sucedido, e descontinuado em 1983) já tinha uma versão de Colossal Cave. Da mesma forma, ZX Spectrum, Commodore 64, Apple II, MSX e PC – só para citar a esmo algumas plataformas – tiveram todos alguma (ou várias) versões de Colossal Cave. Várias dessas versões adicionavam números ao nome do jogo (Adventure II, Adventure 550, Adventure4+), sendo que tais números diziam respeito ao número máximo de pontos que era possível fazer em cada adaptação do jogo (o Colossal Cave de Crowther/Woods, ou seja, a segunda versão, é sinônimo de Adventure 350, pois era este o score máximo nessa versão). Versões posteriores de Colossal Cave passaram a adicionar gráficos ao jogo, mostrando uma visualização da descrição textual de cada ambiente ao longo da aventura.

Em 1986, a Level 9 lançou a trilogia Jewels of Darkness, que consistia em três adventures (com gráficos) diferentes, sendo que o primeiro episódio era uma versão expandida de Colossal Cave. Esses games haviam sido lançados em separado alguns anos antes, mas então a Level 9 resolveu revisá-los, expandí-los e lançá-los novamente, na forma de uma trilogia. Jewels of Darkness foi lançado para Commodore 64, ZX Spectrum, MSX, PC (MS-DOS) e Amstrad CPC, entre outros micros da época.


Apesar do pionerismo de Colossal Cave, ele não foi o primeiro game do estilo a ser lançado comercialmente para microcomputadores domésticos. Essa honra acabou ficando com o extremamente bem-sucedido ADVENTURELAND, de 1978, criado por Scott Adams – que, a partir de então, se consagraria como um verdadeiro “Papa” do gênero aventura-texto.

Entre 1978 e 1984, Adams lançou mais 17 games do gênero, incluindo Mystery Fun House, The Count, Pirate Adventure, Voodoo Castle e muitos outros.

Da mesma forma que Colossal Cave, Adventureland era uma aventura desprovida de qualquer elemento gráfico, narrada na tela apenas através de texto, e a interação do jogador também era feita tão somente por meio de palavras e frases curtas. Do ponto de vista narrativo, Adventureland era bastante “chupado” de Colossal Cave, quase como se fosse uma conversão em menor escala. Já o pioneiro Colossal Cave iria se popularizar nos microcomputadores graças a adaptações domésticas como Adventure, lançado pela Microsoft em 1981.


Com a popularização de Colossal Cave e Adventureland, o estilo “text adventure” estava consagrado, tendo caído no gosto dos nerds de plantão (e, naquela época, ter um computador em casa já tornava o cara um nerd com pedigree). Numa época em que os gráficos que um computador podia gerar não eram mesmo grande coisa, as aventuras-texto mexeram com a imaginação dos jogadores.

Mas não demorou para alguns começarem a pensar que a brincadeira ficaria mais legal com o acréscimo de alguns elementos gráficos. A primeira iniciativa nesse sentido foi o clássico game Adventure (1979) do Atari 2600 (já devidamente resenhado aqui no Cemetery Games), que buscou representar a atmosfera de Colossal Cave na forma de uma aventura gráfica, controlada pelo joystick e não por meio de palavras. Estava criado o estilo “adventure de videogame“, cujo expoente máximo surgiria em 1986, na forma do megaclássico The Legend of Zelda do NES.

Mas o estilo adventure-texto dos computadores ainda tinha muita lenha para queimar. Excitados e embasbacados com Colossal Cave, em 1980 o casal de programadores Roberta e Ken Williams terminou o jogo. Eles tentaram ir atrás de títulos similares, mas descobriram que haviam poucas opções no mercado. Então resolveram criar aquele que ficou celebrizado como sendo provavelmente o primeiro adventure-texto com gráficos: o célebre e histórico MYSTERY HOUSE, lançado para o Apple II.


Assim como em Colossal Cave, em Mystery House toda a interação do jogador com o ambiente era feita por meio de comandos de texto. A diferença é que, agora, a descrição dos cenários era complementada por gráficos bastante caprichados para a época.

A empresa dos dois programadores, On-Line Systems, viria pouco depois a se tornar a Sierra On-Line, e depois disso o resto é história!

Mystery House tinha, ainda, a distinção de ser provavelmente o primeiro adventure com temática de horror, com a trama girando em torno de um grupo de amigos que se aventura na exploração de uma sinistra e enorme mansão vitoriana abandonada (jogue esse game por cinco minutos e você entenderá rapidamente de onde a Lucas Arts tirou a inspiração para o clássico Maniac Mansion, anos depois).

Bem, essa primeira parte do nosso especial sobre adventures de computador vai ficando por aqui! Nas próximas partes, falaremos de adventures nacionais de sucesso e da célebre série ZORK. Fiquem de olho, caros aventureiros retrogamers!

Ah, ficou com vontade de conhecer o pioneríssimo Colossal Cave/Adventure? Então jogue o game online no link abaixo – mas antes certifique-se de que o seu inglês está em dia!

http://www.freearcade.com/Zplet.jav/Advent.html

THE SECRET OF MONKEY ISLAND – Special Edition (2009)

Em 1994, meus pais compraram um PC 386 SX/33Mhz, com 2 megas (não gigas, MEGAS) de RAM. Era uma máquina que hoje, seria digna de ser exibida num museu. Na época, embora longe de ser um “topo de linha”, era um bichinho de respeito. Naqueles tempos, ter um PC em casa era incomparavelmente mais caro e menos comum do que é hoje. E, para vocês terem ideia, o computador não tinha nem placa de som e nem drive de CD-ROM (para ter essas coisas, era preciso na época comprar um dos chamados “kit multimídia”, que custavam o equivalente atual de algo em torno de R$ 1.000,00).

Esse era mais ou menos o típico PC dos idos de 1994.

Embora eu naturalmente já conhecesse uma série de games de PC, esse 386 foi a minha porta de entrada para o mundo dos jogos desta plataforma. Naqueles tempos, um dos gêneros que mais faziam sucesso nos PCs eram os adventures gráficos da Lucas Arts. E, dentre as várias pérolas do estilo que essa empresa criou, há dois títulos que foram verdadeiros “arrasa-quarteirões” naqueles dias: THE SECRET OF MONKEY ISLAND e sua continuação, MONKEY ISLAND 2 – LECHUCK’S REVENGE.

The Secret of Monkey Island foi lançado em 1990, originalmente para o microcomputador Amiga, e logo se tornou (e ainda é) um dos games mais reverenciados desta plataforma. Rapidamente o game ganhou versões para outros micros, como Atari ST e IBM PC (rodando no antigo sistema operacional DOS). Originalmente distribuído em disquetes, o jogo teve uma versão em CD-ROM lançada em 1992 para PCs (e para o Sega-CD, em 1993), com significativas melhorias na parte sonora. Ainda antes disso, o jogo passou por um update gráfico, tendo versões (ainda em disquete) adaptadas para VGA, o que dava ao jogo um visual bem melhor que o formato de cores EGA original.


O jogo se passa na ilha caribenha de Mêlée, onde um desastrado jovem chamado Guybrush Threepwood deseja tornar-se um pirata. Ele então procura os líderes piratas da ilha, que apresentam a ele três desafios que o jovem deverá superar a fim de se tornar uma pirata: derrotar Carla, a espadachim-mestre da ilha; roubar uma estátua na mansão da Governadora e encontrar um tesouro enterrado. No meio dessas aventuras, Threepwood irá cruzar com um terrível segredo que aterroriza a ilha: o fantasma do terrível pirata LeChuck e sua tripulação de espíritos malignos.

No final de 1991 foi lançada a continuação Monkey Island 2, que chamava a atenção principalmente por ser visualmente muito mais bonita do que o jogo original, com gráficos que faziam babar naquela época. É sem dúvida uma das melhores continuações da história dos videogames, e eu até hoje o considero melhor e mais legal do que o primeiro jogo (embora a minha opinião neste particular seja suspeita, pois eu conheci Monkey Island 2 antes do primeiro).


Mas a principal razão de eu estar falando sobre os dois primeiros Monkey Island aqui é a seguinte: em 2009, foram lançadas as SPECIAL EDITIONS de The Secret of Monkey Island e Monkey Island 2 (para Windows, Xbox 360, PS3, iPhone, iPod Touch e iPad). E o que essas versões oferecem em termos de melhorias não é pouca coisa. Primeiro de tudo, as novas edições especiais tiveram seus diálogos inteiramente dublados (os games originais, apesar das trilhas sonoras, não tinham vozes, apenas diálogos textuais). Segundo, os novos remakes apresentam gráficos redesenhados, em alta definição. Terceiro, contam com um mecanismo de “dicas” para que o jogador não fique preso nos puzzles mais complicados. Quarto, são 100% compatíveis com Windows Vista e Windows 7. Quinto (e melhor de tudo para os retrogamers), oferecem ao jogador o recurso de voltar para o visual original dos antigos games, apenas apertando uma tecla a qualquer momento do jogo.


Se você ficou babando com esses games (como foi o meu caso), aqui vai a boa notícia: o serviço de downloads Steam (http://store.steampowered.com/sub/6183) está vendendo os dois primeiros Monkey Island, ambos em suas edições especiais que eu descrevi acima, por U$ 14.99. Sim, os dois games JUNTOS, em suas novas versões, por menos de quinze dólares (R$ 25,33 na cotação de hoje da moeda americana). Que barbada, hein? Eu já garanti o meu por lá …

30.000 visitas!

Um ano e sete meses de vida e a respeitável marca de 30.000 visitas! Mais uma vez, o Cemetery Games agradece a todos os retrogamers do país, que não se cansam (e jamais se cansarão) de acompanhar reviews, detonados e informações sobre os inesquecíveis games dos anos 80 e 90 – uma época já distante, em que a criatividade muitas vezes driblava as limitações dos videogames, e em que nos divirtíamos desbravando maravilhosos e atmosféricos mundos criados dentro de quantidades de memória hoje consideradas ínfimas. Uma época sem internet, em que revistas de videogame eram disputadas a tapa, e em que locadoras de games eram sinônimos de paraíso.

O tempo passou, mas esses games de outrora continuam relevantes, não apenas como orientação e fonte de inspiração para os desenvolvedores atuais, como para os jogadores “menos jovens” que podem agora, mais do que nunca, debulhar esses velhos clássicos por meio de emuladores, coletâneas, serviços online de downloads, remakes, etc.

Enfim, a indústria se renova continuamente e há muita coisa legal nos videogames atuais. Mas jogador que se preza (e que não nasceu anteontem) não abre mão de Atari, NES, Master System, ZX Spectrum, MSX, Game Boy, Game Gear, Mega Drive, Super Nes, Sega CD, Dreamcast, Nintendo 64, PsOne e por aí vai. A lista é longa, e só aumentará com o passar do tempo!

Mais uma vez: valeu a força, pessoal! E vamos agora para os próximos trinta mil!

OS MELHORES EMULADORES ONLINE DA INTERNET

http://www.armchairarcade.com/neo/node/3349

Caros retrogamers, o link acima merece um lugarzinho de destaque nos “Favoritos” de vossos browsers! Trata-se de uma generosa lista de emuladores online, que dispensam qualquer tipo de instalação, configuração ou download de roms. É só clicar no sistema desejado e jogar diretamente no seu navegador. Vai ter gente por aí perdendo o emprego!

A ideia dos emuladores online é particularmente confortável quando se trata de sistema de emulação mais complexa, como é o caso de certos microcomputadores antigos. Por exemplo, eu nunca tive contato com um Apple II de verdade, mas sempre tive curiosidade de conhecer alguns games do sistema. No entanto, não me acertei com nenhum emulador convencional que experimentei. Mas graças ao emulador online que consta nesta lista, pude jogar um game de Apple II pela primeira vez na vida (o jogo em questão foi o clássico Karateka, que eu já conheço da versão do Commodore 64).

Enfim, recomendo! É diversão garantida para todas as horas.